Costumo dizer que nem tudo de melhor da história do rock n’
roll veio da década de 70. É bem verdade que grande parte das bandas que
forjaram o hard rock como ele viria a ser feito no decorrer do tempo vieram
dessa década, mas é inegável a quantidade de boas bandas surgidas nos anos 80,
que vieram a explodir nos anos 90.
Em meio a bandas como Red Hot Chili Peppers, Faith No More,
Guns N’ Roses, Metallica e R.E.M. surgia uma geração de garotos entediados,
oriundos da chuvosa Seattle, nos Estados Unidos. De lá veio a maior remessa de
bandas vindas do mesmo local num curto espaço de tempo, num movimento que
ficaria conhecido como grunge. Dos embriões Mother Love Bone, Green River e Mudhoney
aos consagrados Nirvana, Pearl Jam, Alice in Chains e Soundgarden, isso sem
contar outras bandas que foram diretamente influenciadas por estas, tais como
os californianos do Stone Temple Pilots, os australianos do Silverchair, os
ingleses do Bush, entre muitos outros.
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Os primórdios das bandas de Seattle: Green River |
O que acho curioso é que a tal cena grunge – rótulo esse
rejeitado pela maioria das bandas à época – possui difícil identificação
sonora, ou seja, quais são as semelhanças que tornaram o surgimento dessas
bandas um movimento, além da óbvia cidade natal?
As semelhanças entre as bandas grunge são genéricas, afinal
guitarras distorcidas e letras melancólicas não são exclusividade da turma de
Seattle. Esteticamente o estilo dos integrantes das bandas realmente se
assemelhava, com as clássicas camisas de flanela xadrez, jeans rasgado e
cavanhaques de bode, mas com relação ao som cada uma das bandas possuía
características marcantes.
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A melodia e os grooves do Soundgarden |
O Alice In Chains era talvez a banda que mais se aproximava
do heavy metal, com riffs matadores do excelente guitarrista Jerry Cantrell que
desenvolvia melodias complexas que se encaixavam feito luvas nos vocais pesados
e dramáticos de Layne Staley; já o
Soundgarden também flertou com o peso do metal no começo, seguindo um caminho
mais alternativo, beirando o pop no seu hit “Black Hole Sun”, revelando um dos
melhores cantores da história do rock n’ roll: Chris Cornell; o Pearl Jam
sempre foi uma banda de hard rock típica, porém longe da estética glam da
década anterior, com dois guitarristas, muitos solos, refrãos marcantes e os
vocais de Eddie Vedder que influenciariam toda a geração que viria a seguir; a
banda que virou mito após a morte de seu vocalista, Kurt Cobain, o Nirvana teve
suas raízes no rock underground americano, mas com a pitada certa de pop, que
transformou o segundo disco dos caras, “Nevermind”, num sucesso mundial
inesperado.
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O peso e melancolia do Alice In Chains |
É difícil identificar o que forma um movimento, mas algumas
características comuns no som das bandas costuma se destacar, como por exemplo
no punk a velocidade das melodias, poucos acordes e simplicidade; no metal, a
virtuose, as melodias trabalhadas e a agressividade; no progressivo a
complexidade, longas melodias e alta parafernalha. Enfim, com o grunge essa
distinção parece ser mais difícil, sem diminuir de forma nenhuma o brilhantismo
de todas as bandas consideradas do movimento.
Temo que com esse empacotamento das bandas no rótulo do
grunge, elas percam o devido reconhecimento histórico que merecem, pois nenhuma
das bandas citadas pode ser diminuída por um banner que nunca quiseram
carregar. Essa geração é das mais brilhantes do rock e influenciou outra
porrada de gente disposta a sair da mesmice e fazer barulho.
O mundo precisa reverenciar e muito as bandas de rock dos
anos 90, independente de serem grunge ou não, pois tiraram o rock da inércia e
papagaiada dos anos 80 e se tornaram relevantes, cada qual com sua própria
identidade sonora.
David Oaski
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