quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

RESENHA: DIAS DE LUTA - O ROCK E O BRASIL NOS ANOS 80

Capa da 2ª edição do livro
Lançado originalmente em 2002, com relançamento em 2013 (após esgotamento da 1ª edição), “Dias de Luta: O Brasil e o Rock dos Anos 80” faz alusão ao título do clássico da banda paulistana Ira, presente em seu segundo álbum “Vivendo e Não Aprendendo”, de 1986 e trata-se de um relatório informal cronológico da década citada, detalhando as origens do surgimento, ascensão, afirmação e queda do período em que o pop rock nacional ditou as regras no mercado musical e de entretenimento no Brasil, transformando o ritmo num produto vendável para um público até então pouco explorado como consumidor em potencial: o jovem.

Escrito pelo jornalista Ricardo Alexandre, que possui ampla experiência na cobertura cultural dos anos 90 pra cá, o autor elucida com detalhamento diversas questões e fatores que causaram essa explosão do rock como uma cena, assim como os excessos que causaram sua derrocada. Por não estar inserido como participante ativo da época o autor esbanja imparcialidade em análises e causos contados por artistas do naipe de Renato Russo, Paulo Ricardo, Leoni, Léo Jaime, Roger, Herbert Vianna, Dé Palmeira, entre muitos outros.

O início dessa explosão da cultura jovem em terras tupiniquins tem seu start com Rita Lee, no álbum que leva seu nome, de 1979. Hits como “Mania de Você” e “Doce Vampiro” foram o abre alas dessa identificação de um novo público pronto para ser explorado, coisa que nem os medalhões citados, nem os artistas em voga na época como Elis Regina, Gonzaguinha ou Ivan Lins conseguiam. Tampouco, as bandas de pop rock que são definidas brilhantemente por André Midani (messias das gravadoras na época) como rabo de geração, entre elas Herva Doce, A Cor do Som, Roupa Nova, 14 Bis e Rádio Táxi, bandas que apesar de competentes tecnicamente não conseguiram se comunicar nem com um novo público sedento por artistas com capacidade de usar sua linguagem, nem com os tradicionalistas da MPB.

Havia todo um clima de efervescência cultural no Rio de Janeiro no começo da década de 80, as discotecas já se mostravam enfraquecidas e a rapaziada ansiava por novidades. E foi o que ocorreu com o surgimento do Circo Voador, um ambiente construído para abrigar todo tipo de manifestações artísticas, de bandas de rock, grupos de dança, teatro e até mesmo exposições.

Capa do primeiro LP da Blitz
Diante desse ambiente, não tardou a surgir a primeira banda a estourar em âmbito nacional nos anos 80, a Blitz. Com membros oriundos do grupo teatral Asdrúbal Trouxe o Trombone, a banda capitaneada por Evandro Mesquita conseguiu lançar seu compacto no ano de 1982, com o clássico “Você Não Soube Me Amar”, que trazia uma nova linguagem, ácida e sagaz, com ritmo folk/reggae/rock e narrativa de história em quadrinhos atingiu em cheio a molecada ávida por novidades longe do blá blá blá intelectual dos tropicalistas. No mesmo ano a banda lançaria seu primeiro álbum cheio: “As Aventuras da Blitz”, que ainda trazia outro clássico “Mais Uma de Amor (Geme Geme)” que veio pra consolidar a banda como febre nacional, presente sábado sim outro também no programa do Chacrinha na rede Globo e fazendo turnês nacionais de grande proporção.


O sucesso da Blitz serviu para que as gravadoras finalmente abrissem os olhos para o universo que havia sido desbravado por Rita e expandido pelo grupo carioca, o que fez com que os executivos buscassem por outros nomes, o que veio a calhar em oportunidades pra gente como Gang 90 (já conhecida dos festivais de música), Kid Abelha & Os Abóboras Selvagens, Lulu Santos, Os Paralamas do Sucesso e Lobão (egresso da Blitz), todos alcançando destaque nacional, uns de primeira, como o Kid, outros com alguma insistência, caso de Lulu, que já estava beirando os 30 anos e trabalhava em gravadora.

O sucesso das bandas gerou o surgimento de mais casas de show e discotecas para apresentações e o fortalecimento da Rádio Fluminense, incentivadora e primeira a botar a maioria das bandas dessa geração no dial.

Banner da 1ª edição do Rock in Rio
O auge desse primeiro momento do rock nacional na década de 80 se deu através do Rock in Rio, festival de proporções mundiais organizado pelo empresário Roberto Medina no Rio de Janeiro em 1985. O Brasil até então cenário miado de grandes shows internacionais teria oportunidade de ver grandes bandas do rock mundial em seu auge, como Iron Maiden,  Queen, AC/DC, Scorpions, entre outros gigantes da época. O festival que durou 10 dias possuía estrutura gigantesca da chamada Cidade do Rock e, entre os medalhões foram inseridas atrações brasileiras, dentre as quais bandas novas de pop rock, como Barão Vermelho, Kid Abelha, Paralamas, Lulu Santos e Eduardo Dusek.


Apesar das polêmicas das poucas condições oferecidas aos brasileiros, os artistas conseguiram se destacar entre mortos e feridos, de forma que o festival deixou de herança um culto exacerbado que dura até hoje às grandes bandas que vieram à época e o rock nacional no dia seguinte tomava de assalto a música brasileira, com bandas com agendas lotadas e altas vendagens de discos. O autor faz um curioso exercício de imaginar se Medina e sua trupe tivessem trazido o que realmente era relevante para a música jovem naquele momento, bandas como The Smiths, The Cure e U2. Qual teria sido a influência dessas bandas num festival do porte do Rock in Rio no gosto do jovem médio brasileiro? Nunca saberemos.

O sucesso absoluto do Rock in Rio fez com que cenas de outros lugares do Brasil conquistassem também seu espaço no mercado, como os paulistanos do Ultraje a Rigor, com seu arrasa-quarteirão “Nós Vamos Invadir Sua Praia” (título com uma clara alusão ao domínio dos cariocas no rock nacional), Titãs do Iê Iê (que somente se firmaram no terceiro álbum, o clássico “Cabreça Dinossauro”, de 1986) e do Ira (já sem o ponto de exclamação e o fenomenal Edgard Scandurra nas guitarras).; os baianos do Camisa de Vênus (que se tornaram um clássico sem se render à indústria) do clássico disco ao vivo “Viva”, de 1986; os gaúchos do Engenheiros do Hawaii e Replicantes; e os brasilienses da Legião Urbana, da Plebe Rude e do Capital Inicial.

Já com a cena consolidada e cada vez mais bandas surgindo era hora do rock atingir seu auge no mercado cultural brasileiro, e esse momento se deu em 1986, com os paulistanos do RPM e seu álbum ao vivo “Rádio Pirata Ao Vivo”. A banda que havia lançado o primeiro álbum “Revoluções Por Minuto” no ano anterior havia feito sucesso com singles como “Louras Geladas”, “Olhar 43” e a faixa título, porém ao decidir chamar Ney Matogrosso para produzir sua turnê e serem contratados pelo mega empresário Manoel Poladian, os músicos aumentaram suas ambições, com estruturas de som gigantescas, toneladas de equipamentos, gelo seco e tudo mais de melhor que se dispunha na época. A banda recém iniciara o processo de composição de um segundo álbum quando estourou nas rádios do Brasil inteiro uma versão pirata de “London London”, cover de Caetano Veloso. Ressentidos por não estarem capitalizando o sucesso (já que a música não estava no primeiro álbum e os compactos não faziam mais parte das estratégias das gravadoras) a banda resolve lançar um segundo registro ao vivo, fato tido como inédito no mercado musical mundial até então.
RPM no auge da popularidade

O disco ao vivo trazia em seu repertório os sucessos do único álbum lançado pela banda, somados à inédita “Alvorada Voraz”, à cover “Flores Astrais”, dos Secos & Molhados, além da famigerada “London London” e da instrumental “Naja”. O sucesso foi estrondoso, alcançando 3 milhões de cópias vendidas no decorrer dos anos, sendo até hoje um dos discos mais vendidos em todos os tempos no país.

 O sucesso do RPM foi gigantesco, digno de beatlemania, com histeria de fãs em toda cidade que a banda passasse, todos integrantes (principalmente o cantor e baixista Paulo Ricardo) se tornaram ‘sex symbols’, frequentavam todos programas de auditórios, eram capas de revistas e chegaram a estrelar um Globo Repórter especial, dedicado exclusivamente à banda.

Como era de se esperar de uma banda tão inexperiente, todos os excessos foram seguidos à risca, como manda a boa e velha cartilha do ‘sex, drugs and rock and roll’ e a derrocada veio logo. Em meio a desentendimentos e egos ultra-inflados, a banda se separaria em 1987, com retornos intermitentes desde então.

O sucesso estratosférico do RPM é apontado por diversos músicos, tais como Roger e Herbert, como um divisor de águas de todo aquele cenário do pop rock nacional, pois a competitividade e o ciúme entre as bandas tomou o lugar da parceria e cumplicidade do início da década.

Legião - capitaneada por Renato Russo
Oriunda de Brasília, a Legião Urbana foi outra banda a alcançar sucesso parecido com RPM, porém com comoção mais messiânica em torno do seu líder, Renato Russo. Ao invés de sex symbol, Renato era visto como um guru da geração, o poeta que muitos seguiriam durante toda década. Os álbuns “Dois”, de 1986, “Que País É Este”, de 1987 e “As Quatro Estações”, de 1989 ajudaram a ampliar essa aura, com a banda fazendo turnês cada vez maiores, chegando ao ponto da banda cansada de incidentes por falta de estrutura só realizar apresentações em grandes ginásios e estádios de futebol (situação pensada somente para bandas internacionais consagradas nos dias de hoje).


Cazuza - poeta exagerado
Outro pilar dessa geração foi Cazuza, vocalista do Barão Vermelho nos três primeiros álbuns da banda, deixou o grupo carioca pouco depois do Rock in Rio, em 1985, iniciando uma frutífera carreira solo, interrompida precocemente por sua morte em decorrência da Aids em 1990, aos 32 anos. Considerado outro poeta da geração, Cazuza possuía influências diferentes de Renato Russo, pois ouvia desde sempre muita música brasileira, era fã confesso de Cartola e Lupcínio Rodrigues, além de ser um ‘bon vivant’ adorava frequentar os bares e botequins cariocas sendo famosos seus porres homéricos e baladas desconcertantes. Apesar de ter falecido muito jovem, deixou canções que fazem parte do cancioneiro popular tupiniquim como “Maior Abandonado”, “Ideologia”, “Exagerado”, “O Tempo Não Para”, entre outras.


Apesar do surgimento de bandas interessantes até o final da década, como os cariocas do Picassos Falsos, Hojerizah e Uns e Outros; e os gaúchos do Nenhum de Nós a derrocada do pop rock nacional como movimento dominante na cena de entretenimento no Brasil foi inevitável. As razões são diversas, como a falta de comunicação por parte das bandas com o público, buscando cada vez mais fazer ‘o que desse na telha’ ao invés de expressar a realidade do dia a dia do povo; o amadurecimento das bandas que se distanciaram da ingenuidade dos primórdios da década; o surgimento de bandas de qualidade questionável nas mãos de empresários gananciosos das gravadoras; uma certa subserviência dos roqueiros aos tradicionalistas da MPB, como Caetano, Gil, Chico Buarque e Milton Nascimento; vale ressaltar também o surgimento ou fortalecimento de ritmos com maior apelo popular como lambada, axé music e sertanejo, que rapidamente dominaram o mercado; outro fator foi o famoso jabaculê ou jabá, que nada mais é do que aquela verba fornecida pela gravadora para a rádio disponibilizar seu espaço para determinado artista, ou seja, a arte sendo tratada única e exclusivamente como um negócio.

A protuberância dos Titãs
Três bandas ainda conseguiram atravessar a década de 90 com prestígio, foram elas: Paralamas, Legião e Titãs, porém em 1992 com o lançamento de “Os Grãos”, “V” e “Tudo Ao Mesmo Tempo Agora”, respectivamente as três bandas também se afastaram dos holofotes, pois os álbuns foram mal recebidos por público e crítica.

Os espaços para o rock só foram se abrir novamente com a geração seguinte, de Raimundos, Chico Science e Skank, sendo que os oitentistas só foram retomar o prestígio no começo do novo milênio, quando retornaram às paradas e foram postos na condição de clássicos, muito por conta do sucesso do formato Acústico Mtv, que tiveram gravações de Capital Inicial, Titãs, Ira, entre outros.


Considerações Finais

O autor na época do lançamento da 1ª edição
Ricardo Alexandre possui um texto fluente, sem firulas, daqueles que te prende até escrevendo receita de bolo. É verdade que o tema ajuda, a década de 80 foi fascinante, não à toa o interesse dos mais jovens é frequente e é a década mais lembrada em revivals e tudo mais. O fato é que o autor dividiu a obra em ordem cronológica e com capítulos curtos, falou de todas as grandes bandas surgidas e consagradas no período, uniu causos dos músicos que participaram de toda aquela agitação ao contexto político/econômico/social que o país viveu, formando, de forma despretensiosa um panorama sócio-cultural da década.

Algumas das bandas surgidas na época seguem como pilares do pop rock nacional, outras o tempo esqueceu e outras seguem a carreira nostálgica com retornos esporádicos. O fato é que é de se invejar quem teve oportunidade de experimentar viver num período de tanta ebulição cultural, de tanta gente bacana e interessante a frente das culturas de massas, rapaziada com a cabeça pra frente, se expressando de forma livre e sagaz pela primeira vez no país, gente por quem se orgulhar de ter como ídolos. Se olharmos o cenário pop atual, mesmo sem nenhum pingo de saudosismo, custamos a encontrar algo de espontâneo, com caráter cultural relevante ou até mesmo divertido. Qualquer um com mais de dois neurônios percebe como nossa cultura popular anda rasa.

A análise que fica é de se encontrar os porquês. Por que na década de 80 as pessoas se interessavam por letras inteligentes? Por que bandas tidas como alternativas vendiam centenas de milhares de discos? Por que os ídolos se manifestavam e tinham o que dizer? Por que as pessoas buscavam mais informação do que simplesmente absorviam o que chegava até elas? Não é simples identificar essas respostas, mas me parece que ficamos mais preguiçosos diante das facilidades da Internet, da comodidade das redes sociais, ficamos cercados pelos logaritmos de tudo que concordamos e aquilo fica martelando à sua cabeça em malas diretas e cantos de tela. O mundo é urgente. Qual a última vez que você ouviu um álbum inteiro de um artista? A relação com a música de uma forma geral mudou e não resta dúvidas que foi pra pior. Não só culturalmente como intelectualmente estamos retrocedendo, basta ver a intolerância, a violência e os comuns apelos pela volta do regime militar pra vermos que está acontecendo algo de errado no país e no mundo.

Esse livro é um suspiro de um tempo em que parecíamos que íamos finalmente decolar e virar um país bacana, mas assim como a decepção causada por Fernando Collor (o primeiro presidente eleito pelo povo de forma democrática após o fim do Regime Militar), os tempos modernos cantados por Lulu Santos parecem ter durado somente uma década.


David Oaski







sexta-feira, 8 de abril de 2016

A VOLTA AO MUNDO DAS HQs



Sempre tive interesse pelo universo das histórias em quadrinhos, os famosos gibis. Quando criança nos anos 90, ficava fascinado com aqueles uniformes coloridos, os superpoderes e o carisma e onipresença daqueles heróis que eu conhecia somente de nome. Para uma criança de 10, 11 anos ver toda aquela ação nas páginas do Homem Aranha, do Capitão América, dos X-Men e da Liga da Justiça era emoção demais.

Passei pela adolescência e me tornei um jovem adulto deixando esse fascínio de lado, imaginei que tinha passado dessa fase, o famoso preconceito de que gibi é coisa de criança, além do mais, quando pesquisava o preço dos lançamentos via que tratava-se de uma brincadeira cara, pois diferente da minha infância quando os gibis custavam de dois a três reais, atualmente eles não saem por menos de oito. Devido a isso, acabei largando esse universo.

No entanto, com a erupção de filmes e séries da Marvel e DC em meados dos anos 2000, meu interesse pelos super heróis voltou com tudo e não demorou pra eu dar uma nova chance às HQs. Dei uma entrada nas mega stores online, como Fnac, Saraiva e afins e comprei três gibis pra ver como eu me sentia lendo algo atual e com a maturidade que tenho hoje. Lembro que era uma edição de “Justiceiro Max: Rei do Crime”, do Jason Aaron, “V de Vingança” e “Batman: A Piada Mortal”, ambos do Alan Moore. Daí foi batata, entretenimento de mão cheia, bons roteiros, lindas artes e aquela fantasia gostosa de acompanhar, uma nostalgia boa me tomou e não parei mais, estava picado novamente pelas histórias em quadrinhos.

Watchmen: para muitos, a melhor HQ de todos os tempos 
Não é à toa que os quadrinhos são considerados a nona arte, obras como “Watchmen” do já citado Alan Moore, “Maus”, de Art Spiegelman, “Barman: O Cavaleiro das Trevas”, de Frank Miller, entre tantos outros são a prova cabal de gibis podem sim ser focados no público adulto. Lendo hoje quadrinhos lançados entre o começo dos anos 60 e meados dos anos 70 realmente é possível notar na maioria das histórias um viés infantil, com soluções bobas e textos mal amarrados, porém a partir dos anos 80, com o surgimento de autores como Frank Miller, Alan Moore e Chris Claremont essa abordagem se diversificou, trazendo à tona histórias mais densas, personagens com diversas nuances, trazendo além da diversão uma pitada de veracidade (se é que é possível usar esse termo em histórias de super heróis fantasiados), esses roteiros aliados às artes viscerais dos desenhistas possibilitou uma amplitude infinita à imaginação dos autores, que lançaram histórias icônicas que se tornaram clássicos da cultura pop mundial.

Vale notar que vários enredos dos filmes da Marvel que são fenômenos no cinema hoje em dia partem de premissas das HQs, quando não reproduzem literalmente histórias ou passagens de alguma fase ou arco de determinado personagem.

Realmente como eu havia imaginado no início, a brincadeira não é barata, pois os gibis mensais custam em média de oito a quinze reais; os de capa cartonada, que englobam algumas edições de determinado herói custam a partir de vinte reais; e os de capa dura não saem por menos de trinta e cinco, ou seja, dói no bolso.

O sofrido Demolidor
Mas vale a pena, principalmente no meu caso que procuro acompanhar somente o que tem boas recomendações e personagens que eu gosto – Demolidor, Justiceiro, Wolverine, John Constantine, entre outros.

Pra finalizar, deixo abaixo algumas dicas para quem está começando ou voltando a acompanhar esse delicioso universo:

- Se você é adulto e está voltando a ler gibis recomendo as HQs lançadas pelo selo Vertigo da Panini Comics. Trata-se da linha de histórias adultas da DC Comics, responsável por lançar entre outras coisas, as histórias do John Constantine (no título Hellblazer), do Monstro do Pântano e Homem Animal.

- Se procurar por uma boa dose de nostalgia existe um selo chamado Graphic MSP, ligado às produções do Mauricio de Souza, que está lançando diversas histórias divertidíssimas dos personagens do universo da Turma da Monica, Turma da Mata, Piteco, Astronauta, entre outros. São autores da nova geração revisitando a obra brilhante do Mauricio, quase todas edições são excelentes, transmitindo boas histórias de forma lúdica e singela.

- A principal editora de quadrinhos no Brasil atualmente é a Panini, que é responsável pelo lançamento dos quadrinhos da Marvel, DC e Vertigo; existe também a editora Devir, que lança entre outros, Conan, Hellboy e Besouro Verde; existem outras editoras como a JBC que lança diversos mangás; a Nemo que traz coisas mais alternativas, com boas críticas; , há também uma iniciativa independente chamada Stout Club, que vem lançando coisas bastante interessantes, entre muitas outras que estão investindo nessa arte, alternativas não faltam.

- Existe uma coleção fantástica da editora Salvat, que compilou através de 60 edições, histórias clássicas dos principais heróis da Marvel, abrangendo desde histórias clássicas dos personagens até histórias contemporâneas, como por exemplo, a Guerra Civil, escrita pelo Mark Millar. Essa coleção acaba de ser relançada e é possível encontrar a primeira edição na banca: “Homem Aranha: De Volta Ao Lar”. Além disso, no decorrer dessa coleção a Salvat iniciou outra compilação chamada Grandes Heróis Marvel, também conhecida como coleção da capa vermelha (na outra as capas são pretas), compilando uma história de origem e outra clássica de um herói específico. Em ambas coleções, os materiais são de capa dura e repletos de extras, contando o desenrolar da história até ali e contexto atual do personagem, além de abordar curiosidades e detalhes dos roteiristas e desenhistas envolvidos nas obras. O ponto negativo dessas coleções também é a grana, as edições são quinzenais e cada gibi está beirando os quarenta reais, ou seja, se for acompanhar as duas coleções o bastardo vai desembolsar cerca de cento e sessenta reais por mês. Haja dilmas.

O icônico Batman, pilar da DC
- Vendo o bom desempenho da Salvat, a editora Eaglemoss seguiu a mesma linha e lançou a coleção com as histórias clássicas da concorrente, a DC Comics, o material também é excelente e o preço é praticamente o mesmo.

- Desde sempre os quadrinhos possuem preço de capa, porém nas mega stores online, como as citadas Fnac e Saraiva, além de Amazon, Livraria Cultura e outras, é possível achar os títulos com bons descontos, basta acompanhar e ficar ligados nas promoções.

- Existem alguns bons sites para se manter atualizado sobre o que está sendo lançado e ouvir boas opiniões sobre quadrinhos, temos O Vicio e Universo HQ e no Youtube temos o 2Quadrinhos e o Central HQ que são ótimas fontes de informações, além é claro do Facebook, com suas inúmeras páginas e grupos, vale citar o Cabrito Nerd.

- Algumas dicas de títulos:

Ø  Daytripper: dos brasileiros Fabio Moon e Gabriel Bá, sensacional, tocante e sensível de um jeito que vai te deixar de queixo caído e, se no final você não sentir alguns ciscos nos olhos é porque seu coração foi retirado do seu peito;

Ø  Hellblazer (fase Infernal): Do ótimo autor Garth Ennis, foram lançados até agora seis volumes;

Ø  Wolverine: Arma X: História densa sobre os experimentos feitos no carcaju para inserir o adamantium em seu corpo. Pesadíssimo e sensacional;

Ø  Y: O Último Homem: De Brian K. Vaughan. Todos os homens da terra somem misteriosamente ao serem atingidos por um vírus misterioso, os únicos sobreviventes são um garoto e seu macaco que precisam resolver esse enigma num mundo tomado pelas mulheres. Só pelo enredo já dá vontade de ler, não?

Ø  Miracleman: Da mente genial de Alan Moore ressurge um herói a muito esquecido com uma abordagem totalmente diferente, como era de se esperar do barbudo. A Panini está lançando em formato mensal.

Era isso, gostaria de compartilhar essa experiência da retomada ao hábito de ler quadrinhos depois de tantos anos e quão gostoso é cultivar esse hobby.

Leia, sem preconceitos, se deixe levar e sinta sua mente mais leve abraçando o mundo lúdico das HQs.



David Oaski









segunda-feira, 23 de novembro de 2015

O MARAVILHOSO MUNDO DO SPOTIFY


O Spotify é um dos aplicativos de streaming de música que vem modificando a forma de consumo musical nos últimos anos ao lado do Deezer, Rdio, entre outras plataformas.

Lançado em 2008 por uma startup sueca, o serviço ascendeu ao longo dos anos, conquistando mercados e moldando seus pacotes, alcançando hoje em dia dezenas de países, totalizando em junho de 2015, 75 milhões de usuários ativos, sendo 20 milhões pagos, além de disponibilizar no seu acervo cerca de 30 milhões de músicas, com acordo firmado com as principais gravadoras e majors do mundo, como BBC, Sony, EMI, Warner, Universal, entre outras.

Eu já ouvia falar nessas plataformas a algum tempo, porém sem dar muita bola, precisou um amigo me indicar o serviço para que eu me dispusesse a instalar a versão grátis do aplicativo para Android no meu celular.

Já de cara me senti Rob Fleming, de “Alta Fidelidade” ao me deparar com inúmeras playlists de estilos variados e acervo gigante de álbuns de bandas grandes e alternativas, nacionais e gringas.
Em poucos dias resolvi testar a versão premium e rapidamente me convenci do quanto valia a pena a assinatura em definitivo. A mensalidade custa em torno de R$ 15,00 por mês e pode ser pago via cartão de crédito.

Em resumo, no Spotify você ouve a música que quiser das milhões disponíveis na biblioteca deles. Cada artista tem sua página e você pode escolher através do álbum, das faixas mais populares, além de acessar os artistas relacionados. Até aí você pode questionar qual a diferença de acessar por exemplo o Youtube ou mesmo de baixar as músicas de forma gratuita na Internet; aí é que está: no Spotify as músicas possuem qualidade sonora e o grande diferencial pra quem é apaixonado por música, você tem acesso à milhares de playlists de estilos e temas variados que são elaboradas pela própria equipe do Spotify ou por outros usuários, além é claro, de criar suas próprias playlists, exercício delicioso para quem estava com saudade de gravar em K7 aquela sequencia matadora de canções que marcaram sua vida.

Outra opção que se destaca no Spotify é a de permitir salvar as músicas para audição no modo off-line, ou seja, você pode baixar as músicas em arquivo cachê e ouvi-las mesmo sem estar conectado a uma rede estável de Internet.

Pra quem não conhece, essa é uma fita K7
Vale destacar que são raras as ausências que notei no serviço (e olha que eu fuço), temos apenas um álbum dos Beatles – que sabemos que os direitos autorais são problemáticos -, não temos nada do Planet Hemp e um ou outro álbum cujo o artista ou gravadora não tenha liberado para streaming, nesses casos notei ausência dos álbuns “Heathen Chemistry”, do Oasis e “Mondo Cane”, do Lulu Santos, por exemplo.

O Spotify surge numa fase de transição da indústria fonográfica e da forma do consumo por parte do público e, apesar de ainda ser tema de discussão a melhor forma de remunerar os artistas, pois parece que as gravadoras não repassam a verba que o Spotify disponibiliza para os artistas, ainda assim o CEO da empresa Daniel Ek chegou a afirmar que paga cerca de 2 bilhões de dólares anuais de direitos autorais. Apesar da quantia absurda alguns artistas ainda se opõem ao serviço, como a Taylor Swift, outros tem o pé atrás, como o Black Keys, outros apoiam totalmente a plataforma, caso do Dave Grohl, mas o fato é que todos parecem estar pisando em ovos, tentando entender a cara desse monstro cheio de entranhas modernosas que se tornou o mercado musical.

Seja como for, o serviço moderniza gestos de criar mixtapes e ir à loja de discos ou até mesmo ouvir rádio. Se você se permitir por a nostalgia de lado ficará maravilhado com a experiência de usar o Spotify.



David Oaski






quinta-feira, 29 de outubro de 2015

QUANDO OS MONSTROS DIZEM ADEUS (OU A DESPEDIDA DE STEVEN GERRARD E XAVI HERNANDEZ)


 Poucos jogadores de futebol demonstram amor a um clube nos dias atuais. Cansamos de ver jogadores jurando amor eterno a determinada camisa, mas pedindo milhões para renovarem contratos (um salve ao Robinho e ao Paolo Guerrero).

Caras como Steven Gerrard, do Liverpool e Xavi Hernandez, do Barcelona são raros exemplos de jogadores que construíram suas histórias, se tornaram referências e ídolos nos clubes de sua formação.

Além de apaixonados pelos times, ambos são craques e estão entre os melhores jogadores dessa geração surgida na metade final dos anos 90.
Xavi em ação pelo Barça

Gerrard ao longo de sua carreira atuou em todas as funções do meio campo: primeiro e segundo volante, meia aberto ou armador centralizado. Com sua técnica refinada se mostrou mestre nos passes, lançamentos e chutes de média e longa distância, além é claro, da sua liderança natural dentro e fora do campo.

Já Xavi, apesar de ter participado das conquistas do Barça com Ronaldinho Gaúcho, Samuel Eto’o e cia, sofreu muito com lesões na época, vindo a se firmar como maestro alguns anos depois num dos melhores times de todos os tempos ao lado de Lionel Messi e Andrés Iniesta. Foi também um dos principais jogadores da seleção espanhola campeã europeia em 2008 e mundial em 2010.

"Steve G." símbolo dos Reds
Esses dois monstros sagrados do futebol mundial deixaram seus times na última janela de transferências europeias. O meio campista inglês vai para a liga norte americana e o espanhol vai para o Qatar, pondo fim às trajetórias brilhantes de ambos pelos Reds e Barça e deixando as ligas inglesa, espanhola e a champions league um pouco mais tristes.

Caras como esses estão em extinção num futebol que cada vez mais cria superstars multimilionários que desconhecem as histórias e raízes dos clubes que defendem. Temos muitos moleques e poucos homens defendendo o esporte que tanto amamos. É triste não ver ninguém da nova geração com esse sentimento genuíno por seus clubes, parece que Rogério Ceni, Francesco Totti e Danielle De Rossi são os últimos dos moicanos, fazendo um parentesi para o futebol argentino, pois é recorrente jogadores experientes voltarem aos seus clubes de origem reduzindo drasticamente seus salários, nomes como Banega, Diego Milito, Maxi Rodrigues e Heinze não me deixam mentir.

Por mais que o futebol esteja gradativamente se tornando um business de entretenimento, caras como Steven Gerrard, Xavi e os argentinos nos fazem lembrar daquele esporte que mexia com nosso coração quando éramos crianças. E conforme o fim de carreira deles se aproxima, nos fazem lembrar de um esporte que aos poucos deixa de existir.


David Oaski








quinta-feira, 22 de maio de 2014

TV REVOLTA


Você se acha esperto não é mesmo? É um mal do ser humano, individualista que é, se achar mais esperto que os outros. Porém uma das coisas mais patéticas que se vê nesses tempos de Facebook são os otários metidos a espertos.

Cada hora é uma onda que esses manés aderem como sendo uma baita campanha ou uma medida revolucionária. São inúmeras babaquices, entre elas redução da maioridade penal, apoio a justiça com as próprias mãos e grupos de extermínio, pena de morte e o principal, falar mal do PT e da Dilma.

Essa moda vem se alastrando ferozmente com páginas como TV Revolta e afins. São todos temas polêmicos, porém pertinentes e cuja discussão é necessária e extremamente saudável para formação de um povo mais culto. No entanto, tem muito alienado dando uma de sabichão por aí e isso assusta, e muito.

Simplesmente compartilhar um post e propagar uma ideia sem pensar ou analisar o tema se mostra muito prejudicial à sociedade, pois as pessoas passam a acreditar cegamente em coisas que são discutíveis ou não passam de boatos, como vimos no caso extremo da moça espancada até a morte na minha cidade natal, Guarujá.

É muita burrice ser a favor de redução de maioridade penal, pena de morte e justiça com as próprias mãos, pois sabemos que temos um Estado omisso governado por gente corrupta que se investisse minimamente na educação desse país poderíamos ter um povo com nível de discernimento maior e aí sim chegar à discussão desses temas.

Quanto a falar mal do PT e da Dilma então é mais moda que o “Lepo Lepo”. Ok, o governo do PT no país vai completar 12 anos, após 8 dos tucanos do PSDB e tivemos boas ações dos dois governos. O PSDB lançou o plano Real que retomou a estabilidade do país num momento complicado; já o PT melhorou a economia, reduziu o desemprego e criou ações que ajudam o povo, passando por uma crise econômica mundial sem grandes sustos.

Antes que você tire conclusões precipitadas, não sou petista, tampouco tucano, mas acho que o problema do PT está longe de ser o Bolsa Família ou outros subsídios ao povo. O projeto é ótimo, agora se tem gente que se escora nessa ação como uma muleta é outra história, que se criem mecanismos de fiscalização eficazes. O problema real do PT foi não conseguir oferecer saúde, educação e segurança dignos à população, se apoiando nesse papo de oitava economia mundial como desafogo pra tudo.

Já o PSDB eu não compactuo ideologicamente, aqueles engomadinhos que adoram executivos, privatizações e playboys não me dizem absolutamente nada.

A grande questão é que já se vão duas décadas de tucanos e petistas se revezando no poder, de modo que essa alternância breca a evolução. É preciso buscar uma nova legenda, pesquisar outros candidatos, analisar seus históricos e seus projetos, para aí sim ter um voto consciente e saber que você fez o melhor que podia com o poder de cidadão que tem em mãos.

Antes de reproduzir velhos conceitos como um gravador velho, procure formular uma opinião própria. Se descontamine de si próprio.



David Oaski

segunda-feira, 19 de maio de 2014

A NOVA GERAÇÃO DO ROCK NACIONAL - PARTE 2

A alguns meses fiz um apanhado de novas bandas do rock nacional, a fim de canalizar num post novos sons a quem tem interesse, porém não tem tempo de ir atrás ou simplesmente não está por dentro do que tá rolando na música que não chega às grandes massas.

Naquele primeiro post falei de cinco bandas e abaixo vão mais cinco que valem a audição:

Black Drawing Chalks

Um dos principais expoentes da frutífera cena rock de Goiás, o Black Drawing Chalks faz uma mistura de influências de stoner rock com rock setentista e faz um som sagaz, com pegada estradeira e viril.
Junte distorção e psicodelia, porém sem papagaiada, soando cru. Esse é o som do BDC:



Stellabella

O Stellabella é uma banda carioca muito rock n’ roll, com forte influência do rock dos anos 90, principalmente do grunge.
Eles já tem dois álbuns lançados e a poucas semanas lançaram seu novo EP “Rock In Der Vene”.
Vejam o novíssimo clipe do single “Bunker”:



Molho Negro

Você que acha que o melhor que o Pará fornece para música nacional é a terrível Gabi Amarantos terá uma grata surpresa ao ouvir o som desses caras de Belém.
Com um rock de garagem eles pintaram no ano passado com o bom EP “Rock!” e acabam de lançar um novo disco intitulado “Lobo”.
Vejo eles como um Autoramas com melodias mais densas. Se liga no novo clipe “Concurso”:



Suricato

Banda natural do Rio de Janeiro que ganhou fama por estar participando do reality show da Globo, Superstar. Com um som com forte influência de folk moderno e pop rock, eles se caracterizam por utilizar instrumentos inusitados como banjo, ukulele, entre outros.
Com um disco lançado em 2012 chamado “Pra Sempre Primavera” eles prometem um lançamento para logo mais aproveitando a onda de sucesso do programa global.
Saca a baladinha:



Maglore

Banda baiana que soma pop rock com doses de MPB, dando liga num som que flerta com o melhor dos Los Hermanos através de canções com melodias calcadas nas guitarras e letras com forte apelo poético, ora ensolarado, ora melancólico.
Eles possuem dois discos lançados: “Veroz”, de 2011 e “Vamos Pra Rua”, de 2013 e canções como “Demodê” e “Às Vezes Um Clichê” tem um potencial enorme no cenário pop atual.



Estão aí mais cinco bandas que mostram que o rock ainda tem muitos artistas talentosos espalhados pelo Brasil, só falta um gatilho que é difícil determinar o que é, para esses caras ganharem mais espaço. Quem sabe se o Brasil fosse um país mais culto?


David Oaski



quinta-feira, 15 de maio de 2014

RESENHA: FELIZ ANO VELHO - MARCELO RUBENS PAIVA


Nota: 7,0

Feliz Ano Velho é um romance escrito pelo brasileiro Marcelo Rubens Paiva, lançado em 1982 que relata a experiência do autor após sofrer um acidente alguns dias antes do Natal de 1979 ao mergulhar de cabeça num lago com meio metro de profundidade, que lhe causou a fratura da cervical e o deixou paraplégico aos 20 anos de idade.

Filho de um ex-deputado que havia sido torturado e morto pela ditadura militar, Marcelo cresceu como um típico playboy paulista, tendo morado em Santos e São Paulo, durante a adolescência. Ele era popular, charmoso, tinha várias namoradas, viajava muito, pegava onda, tocava violão, enfim, tinha uma vida social extremamente ativa até o fatídico acidente.

Pinta de galã do autor
Já de cara Marcelo narra o momento em que mergulhou ao estilo tio Patinhas em busca de um tesouro escondido e se chocou com o fundo do lago, ouvindo um zunido. Ao ser resgatado pediu que seus amigos o colocassem de pé, porém seu corpo não respondia. Ele foi levado às pressas para o hospital, onde passaria um bom tempo na UTI.

Alternando momentos acordados e outros tantos dormindo sob efeito dos remédios, Marcelo se vê sozinho, somente sendo amparado por enfermeiros e visitas eventuais da mãe, ele não sabe exatamente o que aconteceu e duvida que tenha sido algo mais grave.

Apesar do início denso, Marcelo não soa piegas ao narrar seu drama, pelo contrário, ele ilustra bem seu sofrimento e seu inconformismo, porém sempre com boas sacadas e boas lembranças da vida pré acidente. Essa mescla de lembranças da sua fase independente permite ao leitor imergir numa época em que o país ainda era assombrado por uma ditadura e a repressão comia solta.

Paiva, até hoje cadeirante
Sobre a fase antiga, Marcelo narra diversos causos envolvendo maconha, garotas, baladas e situações divertidas e sobre a nova e assustadora fase, o escritor trata detalhadamente suas dificuldades e suas sensações. Ele fala, por exemplo, que quando ainda estava internado pensou em tirar a própria vida, fala de uma curiosidade de muitos que é o fato de ele conseguir ficar de pau duro, fala da horrível necessidade de depender de outras pessoas e da constante angustia de ouvir diagnósticos imprecisos sobre sua recuperação, pois como a maioria dos especialistas dizia: não havia como prever nada e cada caso era um caso e cada corpo reage de uma forma.

Ele relata sempre sua situação com realismo e, apesar do tédio do começo por se ver imóvel sobre uma cama durante horas, ele conta com o companheirismo da família e diversos amigos, além disso, devido às boas condições financeiras da família ele pode contar com profissionais o monitorando constantemente, assim como uma enfermeira para lhe auxiliar durante quase todo o tempo.

A história do livro termina aproximadamente um ano após a data do acidente com Marcelo ainda reclamando do seu infeliz destino, porém entendendo que só ele poderia superar esse fardo e teria que fazer o possível para se adaptar à nova realidade.


Considerações Finais

Feliz Ano Velho é um livro já tido com um clássico da literatura nacional contemporânea, sendo traduzido para diversas línguas, porém ao terminar a leitura fiquei um pouco em dúvida se o livro é digno de todo esse culto. A história é bem contada e trata-se de um relato detalhado de um jovem passando por uma situação terrível que já aconteceu com muitas outras pessoas e reconheço que o autor tem uma aura pop, fala de sexo sem pudor e não tem medo de se expor ao ridículo, vai ver que é daí que vem esse carinho especial dos leitores pelo livro.

É curioso notar as gírias usadas pelo leitor no decorrer de seu texto, como “afins” que denota interesse em alguém ou “dar uma bola” que nada mais é que fumar um baseado, entre outras. O autor também mostra que apesar de jovem estava antenado com cinema e música, citando a tropicália que começava a despontar à época.

O título vem de uma sacada do autor ao passar o réveillon no hospital, ele se pega cantando a famosa canção: “Adeus ano velho / Feliz ano novo” ao contrário: “Feliz Ano Velho / Adeus Ano Novo”.

Resumidamente é disso que se trata o livro, um jovem que se vê privado da sua vida extremamente ativa por uma ironia do destino, sem ser piegas, somente relatando suas angústias e dificuldade físicas.

Apesar de achar o livro superestimado ele tem um tema interessante e o autor imprime um ritmo fluente e descontraído, o que torna a leitura ágil e agradável.


David Oaski