sexta-feira, 18 de outubro de 2013

RESENHA: MECHANICAL BULL - KINGS OF LEON



 Nota: 7,5

O Kings of Leon é um caso peculiar no mundo do rock. Formada em 2000, pelos irmãos Caleb Followill (vocais e guitarra), Nathan Followill (bateria), Jared Followill (baixo) e seu primo Matthew Followill (guitarra), em Nashville, interior dos Estados Unidos, eles apareceram como barbudos mal encarados que tocavam um som cru, com influências de country e Southern rock.

Nos primeiros lançamentos da banda, desde o EP “Holly Rover Novocaine”, lançado em 2002, passando pelo aclamado primeiro álbum “Youth And Young Manhood”, de 2003, a banda alcançou sucesso principalmente no Reino Unido que os abraçou como uma das maiores bandas de rock surgida nos últimos tempos.

Nos lançamentos seguintes a banda ia incluindo em seu som pouco a pouco uma diversidade maior de influências, tendo pinceladas de diversos estilos musicais em seus discos, como pop, reggae e rock de arena.

Família Followill
Essa evolução culminou com o sucesso mundial alcançado pela banda com seu best-seller “Only By The Night”, lançado em 2008, em que a estética da banda alcançou o auge do pop rock, somado a isso a mudança no visual dos integrantes, que passaram a se apresentar de forma mais asseada, com a barba feita, de modo que os barbudos indies estranhos passaram a ser galãs tocando nos principais festivais ao redor do mundo. Hits como “Sex On Fire” e, principalmente, “Use Somebody” fizeram com que a banda mudasse seu status no cenário musical mundial, alcançando grande reconhecimento internacional e finalmente passando a ser sucesso em sua terra natal, os Estados Unidos.

Mais experiente e com sua identidade aparentemente definida a banda está de volta em 2013, com seu sexto álbum, “Mechanical Bull” que mostra a evolução e maturidade alcançadas pela banda no decorrer desses 13 anos de existência. Neste álbum a banda junta o que tem de melhor das suas influências, formando um belo álbum, com destaque para as linhas de guitarra de Caleb e Matthew e pelos vocais de timbre marcante de Caleb, esses fatores aliados à ótima cozinha garantem fluidez e precisão a cada melodia do play.

O disco tem no mínimo quatro músicas totalmente acima da média, são elas: “Rock City”, com pegada country e ótimo solo de guitarra; a stoner “Don’t Matter” deixaria Josh Homme orgulhoso, com guitarras e teclado fazendo a cama para os vocais de Caleb, possui um excelente solo de guitarra; já “Temple” é um pop rock dos melhores; e “Family Tree” é comandada por uma belíssima linha de baixo, num country rock muito potente com ótimo refrão.
Reis de Leon

Não confunda, apesar dessas canções se sobressaírem o restante do álbum, mesmo um degrau abaixo segura bem a bronca, como no primeiro single “Supersoaker” que abre o disco com melodia acelerada e cantada de forma urgente, com características parecidas com “Coming Back Again”.

A balada melancólica e arrastada “Beautiful War” tem certa beleza, mas chega a ser um pouco cansativa, ao contrário de “Wait For Me”, que é mais direta. “Comeback Story” é uma semi balada country, com outro belo trabalho das guitarras e notável influência de gospel americano. A fábrica de baladas anda fértil pro lado do Kings of Leon, pois ainda há espaço para “Tonight”, balada cuja melodia vai ganhando força, com óbvios ares noturnos; “On Te Chin” é mais interessante, com melodia bem encaixada e ótimo clima do campo.
Os guitarristas são o destaque do álbum

A versão deluxe do álbum ainda contém os pop radiofônicos (e melhores que algumas das faixas inclusas na versão simples) “Work On Me” e “Last Mile Home”.

Mais um bom lançamento para o farto ano de 2013, “Mechanical Bull”, apesar de alguns escorregões se junta a curiosa e interessante discografia do Kings of Leon, uma das poucas bandas que possuem o mérito de compor melodias trabalhadas, com ótimas guitarras e agradar o público além do mundo do rock, tocando em rádios e deixando adolescentes molhadas.

O rock perde cada vez mais espaço e relevância diante de outros estilos musicais e bandas como Kings of Leon e Nickelback, apesar de contestadas, ainda fazem as guitarras transgredirem as barreiras dos nichos cada vez menores reservados ao rock n’ roll.


David Oaski 

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

RESENHA: FRANZ FERDINAND - RIGHT THOUGHTS, RIGHT WORDS, RIGHT ACTION




Nota: 9,0

Uma das muitas bandas consideradas a salvação do rock no início do milênio, os escoceses do Franz Ferdinand nunca pareceram se preocupar muito com esse rótulo, tratando de lançar bons discos e hits marcantes no decorrer de sua competente carreira, iniciada em 2002, na Escócia, por Alex Kapranos (vocalista e guitarrista), Bob Hardy (baixo), Nick McCarthy (guitarra e teclados) e Paul Thomson (bateria).

A banda em 2013
Os álbuns do Franz Ferdinand sempre variaram entre o garage rock dos anos 70, o pop dançante dos anos 80 e o indie rock do começo da década de 2000, no entanto faltava aos escoceses um álbum mais coeso, uma obra completa que se tornasse um registro marcante para a turma de Kapranos. Realmente o verbo está certo: faltava, pois com o lançamento de “Right Thoughts, Right Words, Right Action”, a banda põe as mangas de foras num esporro pop, sensual, dançante e psicodélico mostrando que ainda tem muito chão pela frente e não será mais uma esquecida banda obscura com dois ou três sucessos como vários de seus contemporâneos que a crítica insiste em exaltar.

O álbum é rápido, são 10 faixas e somente três chegam à casa dos 4 minutos. A velocidade, no entanto, não gera falta de qualidade, pelo contrário, o disco é enxuto e extremamente cativante, com canções que te pegam de primeira, sem apelar ou soar pegajoso.

O play abre com o clima dançante e que cheira à pista de dança de “Right Action”, com guitarras galopantes, vocais e backing vocals bem encaixados naipe de metais, juntando as características mais marcantes da banda. Na sequencia vem a excelente “Evil Eye”, certamente uma das melhores músicas do ano, que abre com a bateria seguida por um grito e mistura doses de psicodelia aos comuns teclados da banda. Já “Love Ilumination” é mais acelerada, com ótimas linhas de guitarras e um solo esperto, formando uma canção pop deliciosa.

O carismático front man, Alex Kapranos
“Stand On The Horizon” começa mais amena, quebrando o ritmo frenético do álbum pela primeira vez, mas rapidamente ganha corpo, com melodia bem suingada e letra que fala sobre um cara orgulhoso correndo atrás de uma garota. A balada pop ensolarada “Fresh Strawberries” mantém o clima das ótimas canções, porém é curioso notar que a maior parte das letras não reflete a pegada das melodias cheias de energia e dançantes, pois tratam de temas melancólicos e desesperançosos, muitas vezes com um tom jocoso, traço forte dos vocais de Kapranos.

O álbum volta então ao ritmo frenético com a acelerada “Bullet”, enquanto “Treason! Animals.” mistura a levada dançante com a pegada psicodélica. Dando um contraponto, na sequencia surge “The Universe Expanded” com clima intimista e minimalista com Kapranos quase sussurrando os vocais, com uma leve subida no refrão remetendo ao The Killers.

Fechando o disco, “Brief Encounters” e “Goodbye Lovers & Friends” possuem levada mais cadenciada, com suingue das guitarras e melodias deliciosas, sendo que a primeira é quase um reggae e a segunda remete a ritmos havaianos e brinca com a frase “I don’t play pop music, you know i hate pop music” com um tom sarcástico, numa canção pop até as entranhas.

O álbum possui melodias precisas. Não há nada extremamente inovador, tampouco músicos virtuosos, mas a experiência e sagacidade dos escoceses fizeram com que estas 10 joias se encaixassem devidamente em seu devido lugar, formando uma obra direta e concisa e, o mais importante, deliciosa de ser desfrutada.

I know you love pop music Kapranos, por isso seu grupo fez um dos melhores discos do ano.


David Oaski








segunda-feira, 7 de outubro de 2013

SE EU FOSSE EU...


Tenho minhas manias. Quem não tem? Aparento ser calmo, mas sou ansioso. Tenho minhas qualidades. Também sei ser doce, sei como tratar uma mulher. Respeito os mais velhos e tenho noção de hierarquia. Sou disciplinado com o que me comprometo a fazer, porém não me comprometo com muita coisa.

Sou tímido com quem não conheço e extrovertido com quem tenho intimidade (todo mundo é assim, certo?).

Minha cabeça quase sempre joga contra. Quando não estou tranquilo, ela sempre manda adrenalina ruim, que me deixa sem rumo, irritadiço e já paguei caro por isso.

Me incomodo muito com a forma como o povo do meu país leva a vida, de forma alienada, inculta, mas sei que não posso culpa-los, nosso governo não faz por onde, com seus investimentos pífios em saúde, segurança e, principalmente, em educação, o pilar para um povo mais evoluído e com maior poder de discernimento.

Cada vez mais minha personalidade se fortalece, pro bem e pro mal. Cada vez tenho mais apego aos meus princípios e mais noção do quanto ser correto não me traz absolutamente nada a não ser uma consciência tranquila ao deitar minha cabeça no travesseiro à noite. Por outro lado, cada vez sou menos tolerante com o que não gosto e relevo menos o que considero babaquice, como arrogância, mimimi, desonestidade, pagode e afins.

Muitas vezes transpareço ser um cara duro, com piadas de humor negro, provocações e sarcasmo. Sinceramente não me preocupo com isso, quem tiver interesse de me conhecer a fundo vai saber que é só uma casca, quase um mecanismo de proteção pra não me entrelaçar nesse mundo sujo que me rodeia. A ideia é mais ou menos essa: despreze quem não lhe acrescenta nada e dê um braço por quem se importa com você.

De perto ninguém é normal e eu to bem longe disso. É sempre necessário pesar os prós e contras e analisar quem vale a pena ou não permanecer na sua vida ou só passar como mais um dos milhões de momentos que se passam nesse raio que é a vida.

Por enquanto, espero que vocês sigam ficando.

Abraço a todos amigos!



David Oaski

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

O FIM DE BREAKING BAD


Não sou um aficionado por séries, confesso. Porém quando li um artigo na Rolling Stone Brasil a cerca de um ano sobre uma série chamada Breaking Bad que vinha fazendo cada vez mais sucesso e com um enredo tão diferente do que estamos acostumados a ver, tive a curiosidade aguçada. Resolvi então baixar os primeiros episódios e ver se aquele hype era justificado. Rapidamente notei que era, e muito!

Elenco da série
O protagonista é Walter White (Bryan Craston), um professor de química de meia idade, que leva uma vida medíocre em todos os sentidos, tem um filho com deficiências físicas e uma esposa grávida. Para piorar o cenário, Walter descobre que tem um câncer em estágio avançado, de forma que ele tem poucos meses de vida.

Tomado pela frustração e desespero diante de tal situação, Walter resolve fabricar metanfentamina com o objetivo de deixar sua família em melhores condições após sua morte. Até então, uma causa justa, um modo inescrupuloso, é verdade, porém na situação limite em que ele se encontrava, de certa forma compreensível.

Uma história simples e improvável você poderá pensar. No entanto, no desenrolar das temporadas, é possível notar o quanto a história é bem amarrada, quanto os personagens são cativantes, quanto o roteiro é trabalhado, e direção e elenco são incríveis.

Jesse e Walter cozinhando o cristal azul
Dirigida por Vince Gilligan, que já havia trabalhado na cultuada série Arquivo X, a série apresenta além de White, há também o seu ajudante e sócio Jesse Pinkman (Aaron Paul), seu cunhado, que ironicamente trabalha na Agência Anti Drogas, Hank (Dean Norris), sua esposa Skyler (Anna Gunn), sua cunhada Marie (Betsy Brandt) e seu filho Walter Jr, o Flyn (RJ Mite). 

Além desse elenco fixo presente desde o começo também fizeram parte da série os vilões Tuco e Gustavo Frings (Giancarlo Esposito), o segundo certamente um dos melhores vilões de todos os tempos em qualquer tipo de obra fictícia. Ainda tiveram espaço o carismático e presepeiro advogado Saul Goodman (Bob Odenkirk) e o soturno ajudante de Frings, Mike (Jonathan Banks).

Heisenberg - o alter ego sombrio de White
Não vou aqui me esticar no desenrolar de cada temporada, pois já existem estes guias na Internet, além é claro de ser possível baixar em poucas horas uma temporada completa de qualquer série via arquivos em torrent. Gostaria apenas de deixar registrado o quanto eu admiro essa série, uma forma de arte como vi poucas na minha vida, tamanha a atenção dada a cada mínimo detalhe, de forma que nada, nenhum mínimo incidente ocorrido na série aconteceu por acaso, cada cena, cada passagem possuía uma história, uma identificação, uma continuidade. Tal apreço com a condução da série levou ela a ser cada vez mais reconhecida no decorrer de suas temporadas, vide que na primeira temporada a audiência era irrisória e na quinta e ultima foram quebrados recordes e mais recordes de telespectadores ao redor do mundo.

Enfim, acho ótimo ter acesso a uma série fantástica como Breaking Bad em tempos de cultura cada vez mais rala no Brasil e no mundo.

Se você ainda não conhece, assista e se encante, se surpreenda e mantenha a relação de amor e ódio com cada personagem de Breaking Bad. Certamente você vai se ver em algum momento, obrigado a ver 3, 4 episódios em sequencia tamanho o nível de adrenalina imposto pelo drama.


David Oaski


segunda-feira, 23 de setembro de 2013

E O ROCK IN RIO MOSTRA QUANTO O ROCK É RELEVANTE


Um grande festival. Grandes bandas. Artistas mundialmente consagrados. Milhares e milhares de pessoas. E o rock n’ roll mostrando o quanto ainda é cativante e bate forte na alma daqueles que tem paixão pelo estilo.

Salvo aqueles que são arroz de festa, e estão ali para simplesmente postar algumas fotos em redes sociais, o festival atrai milhares de apaixonados por rock n’ roll, pessoas que conhecem as bandas, seus repertórios e fazem questão de ver de perto e sentir a energia de seus ídolos e suas canções.

A parte pop do Rock In Rio também é louvável, afinal mostra o quanto o festival é eclético e respeita outros estilos, aliás é preciso ressaltar que tal espaço não é novidade no Rock In Rio, que desde o princípio se caracterizou pela presença de artistas variados.

No entanto, shows como o dos dinossauros do Metallica, Bon Jovi, Iron Maiden e Bruce Springsteen são daqueles espetáculos memoráveis, que enchem o coração da audiência de alegria e fazem os olhos marejarem. É daqueles eventos que cada um dos presentes se orgulha de ter presenciado e não só assistido, pois esses caras fazem mais que um show, eles proporcionam uma experiência marcante e profunda na vida dos fãs que os acompanham desde sempre.

Houve o mais do que bem vindo espaço para os contemporâneos do Muse, Nickelback, Avenged Sevenfold, entre outros. Fato ótimo, pois faz que o nome das bandas passe a ser reconhecido no país, além de trazer o interesse de diversas pessoas que ainda não conheciam o som dessa galera.

Vale destacar também a transmissão via Tv por assinatura do Multi Show que apesar de apresentadores em alguns momentos confusos e um som que fica longe da perfeição, leva o festival para a casa de telespectadores do país todo que não tiveram oportunidade ou condições de estarem presentes fisicamente.

Enfim, um festival desse porte, como esse apelo, levando o rock no nome e na alma serve como um tapa na cara daqueles críticos que dizem que o rock n’ roll não possui mais relevância na cultura pop. Os dois últimos fins de semana e artistas do mais alto gabarito mostraram que isso nunca vai acontecer.



David Oaski

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

DEU MERDA


- O seu abraço me conforta, sabia?!

- Sinto o mesmo.

- Eu esqueço do mundo. Tá tudo uma merda, em todos os aspectos, mas quando te abraço me sinto seguro, refugiado, protegido.

- Que siga sempre assim!

- Como a gente faz pra seguir sempre assim?

- Não faço a menor ideia. Mas acho que se formos honestos e não jogarmos sujeira pra baixo do tapete já ajuda bastante.

- Mas a rotina assola todo mundo.

- Mas a rotina com quem a gente gosta nem sempre é uma coisa ruim. Durante muito tempo tudo que eu quis foi somente ficar um domingo no sofá, curtindo o simples ‘estar’ ao lado de uma pessoa especial. Especial como você.

- Amo suas palavras.

- Quero que me ame por inteiro.

- Se você continuar assim vai ser inevitável.

- A gente encaixou muito né?!

- É. Deu merda!

- Que? Como assim deu merda?

- Não há mais retorno. To apaixonado por você.

- Obrigado pela parte que me toca. É recíproco.



David Oaski

terça-feira, 3 de setembro de 2013

RESENHA: O ALIENISTA - MACHADO DE ASSIS


Nota: 7,0

O Alienista é um conto escrito pelo mais célebre autor brasileiro, Machado de Assis, lançado em 1882. O conto apresenta uma narrativa diante de crônicas antigas, como diz o autor, de um médico chamado Dr. Simão Bacamarte, que se especializa em cuidar da loucura do ser humano e resolve montar uma casa para abrigar aqueles que sofrem desse mal.

A casa em questão é intitulada Casa Verde, na vila de Itaguaí, no Rio de Janeiro e é lançada com muita pompa e festividades.

Simão é um médico conceituado, um dos mais respeitados do Brasil e de Portugal, onde estudou. É casado com D. Evarista e tem um ajudante, o boticário Crispim Soares, que elabora os remédios para tratar dos pacientes. É tratado pelas crônicas como dono de uma mente brilhante, uma figura altamente competente e capaz, devido ao seu alto intelecto e ótimo caráter.

Bacamarte passa então a recrutar para a Casa Verde todos aqueles que ele nota algum sinal de loucura, mas não somente loucos tradicionais, mas todos aqueles que têm algum desvio de personalidade, como um coitado que ficou rico e perdeu toda sua fortuna devido a empréstimos que não lhe eram devolvidos; ou um outro que ficava admirando sua própria casa. Enfim, qualquer um que tivesse uma característica que o diferenciasse da maioria era recluso na Casa Verde. Lá os pacientes eram separados por características e graus, a fim de serem estudados e tratados de forma adequada.

Tal fato foi muito questionado pela população, pois eram cidadãos de bem, que tinham família, empregos e se relacionavam normalmente em seus meios sendo pegos e tratados como loucos. No entanto, o prestígio de Bacamarte era tamanho que grande parte da população ainda acreditava em seus métodos.

Porém, com o passar do tempo e quando grande parcela da população de Itaguaí se encontrava em cárcere na Casa Verde, estourou uma rebelião, comandada pelo barbeiro Porfírio. Iniciada por poucas pessoas, uma marcha rumo à Casa Verde foi puxada pelo babeiro, que logo angariou diversos seguidores a caminho da clínica. Lá chegando foram atendidos por Simão Bacamarte que com educação e de forma articulada lhes ofereceu uma discussão com alguns representantes do povo e alegou que tudo que ele defendia era a ciência. As palavras e a forma suave com que Simão se pronunciou amenizaram um pouco a fúria dos rebeldes, mas mesmo assim Porfírio ainda os incitava a invadir a casa. Foi quando eles foram abordados pelas forças armadas, que foram enviadas para proteger a Casa Verde.

Após ameaças e algum confronto, em que muito ficam feridos se dá a mudança de lado de vários militares para o lado dos protestantes, o que causa o fim da luta, já que os representantes do governo não iam se dispor a lutar contra seus pares. Após o término do confronto a multidão ruma então em direção à Câmara dos Vereadores de Itaguaí, a fim de tomar a instituição. O objetivo é alcançado e Porfírio vira governante da Vila.

O grande Machado de Assis
No entanto, ao contrário do que todos pensavam o antigo barbeiro não visa o fechamento da Casa Verde após assumir o poder. Numa jogada política ele sugere a Simão que libere, caso não tenha ideia melhor, alguns pacientes com melhor juízo ou já quase curados, o médico fica curioso com a sugestão já que esperava ser preso ou que a Casa Verde fosse demolida.

O apoio de Porfírio à Casa Verde causa revolta na população que alega que o barbeiro se vendeu ao alienista, causando sua derrubada e sendo substituído por João Pina, outro barbeiro que praguejava contra os métodos de Simão Bacamarte. No entanto, quando João assumiu o poder, o alienista pediu que ele entregasse à clínica o governante antecessor, assim como outros agitadores de seu governo, o que faz com que o alienista goze de prestígio com o novo governo.

O auge da rigidez de Bacamarte se dá quando o mesmo recolhe à Casa Verde sua própria esposa, D. Evarista, devido ao fato da mesma se mostrar indecisa ao escolher o visual a ser utilizado numa festa, o que a faz ser considerada demente pelo marido.

Diante de todo pavor por parte dos poucos moradores livres de Itaguaí em serem recolhidos por Bacamarte, eis que surge uma mudança drástica em seus métodos de avaliação da loucura. Simão libera todos os pacientes da clínica informando que todos estão curados e reavaliando suas convicções garante que os loucos são aqueles que não apresentam nenhum traço fora do correto em sua personalidade, ou seja, a situação anterior se inverte e todos os cidadãos extremamente corretos, de postura e de bem são recolhidos à Casa Verde. Os mesmos só eram liberados após serem forçados de certa forma a sair do comportamento retilíneo e desviassem sua conduta. Assim, de acordo com Simão, estariam curados.

Após os estudos com os novos pacientes, o alienista tem mais um insight, de que o louco ali poderia ser ele e não todos aqueles que haviam passado pela Casa Verde nos últimos tempos. Ele convoca então uma assembleia com todos seus amigos, sua esposa e pessoas próximas e pergunta aos mesmos quais são seus defeitos, seus desvios, suas inimizades e todos prontamente responderam de forma honesta que ele não tinha nada que o desmerecesse, era um sujeito digno, louvável, honesto e admirável. Tal resposta convenceu de vez o alienista de que o louco era ele e só restava se recolher ele mesmo a sua grande criação, a Casa Verde.

Aos suplícios de seus entes e amigos para que ele não procedesse dessa forma, Simão Bacamarte foi morar na clínica e pouco se ouviu falar dele depois disso. Mas conta-se que ele morreu dezessete meses após sua internação e que seu enterro foi muito comovente e movimentou a cidade, que reconheceu as boas intenções daquele brilhante homem.

Considerações Finais

Esse foi meu primeiro contato com a obra de Machado de Assis e se deu devido à música do Detonautas Roque Clube, que possui o mesmo título do livro. Achei a letra interessante e resolvi ler a obra.

Apesar da linguagem complexa e palavreado característico da época, com a ajuda de algumas notas de rodapé da edição que li consegui compreender bem o conto e notar as nuances da história. Além disso, na citada edição há toda uma contextualização histórica e teórica que auxilia na compreensão e interpretação da história.

Misturando elementos do romantismo e do realismo, Machado de Assis apresenta um relato complexo de como lidamos com a loucura e como a mesma é tratada, além de questionar muitas vezes com ironia sutil quem está preparado para dizer quem é louco e quem não é.

Não se trata de uma leitura das mais fáceis, mas se vê uma ótima história, de um conto clássico que até hoje permite diversas interpretações de suas soluções e personagens. É realmente brilhante a forma que Machado de Assis escreve, pena que muito desse brilho seja desperdiçado e enfiado goela abaixo de crianças que ainda não tem maturidade para o contato com uma obra dessas durante o primário ou ensino médio.



David Oaski