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segunda-feira, 10 de abril de 2017

ENTREVISTA: THE SCUBA DIVERS


Atenção amigo rocker carente de bons sons na cena nacional, pois vem de Santos, a Califórnia brasileira, sua nova banda favorita, uma banda que poderia ter surgido na Inglaterra no início dos anos 80, o Scuba Divers vem na contramão de tudo que toca no rádio atualmente, pois apesar dos integrantes terem média de idade inferior a 25 anos, as influências da banda passam por estandartes do pop oitentista, tais como The Smiths e The Cure, passando pelo rock alternativo dos anos 90, de bandas como Placebo e Smashing Pumpkins, isso tudo soando original, aliando essas influências num caldeirão sonoro, criando algo novo e poderoso.

A banda recém lançou seu primeiro álbum auto intitulado, com onze canções que alternam climas densos, com melodias mais ensolaradas, e letras que tratam temas diversos, sendo uma das inspirações principais os filmes de terror, onda muito apreciada pelos irmãos Maurício Teles (baixo e vocais) e Daniel Teles (guitarras e vocais) – completam o time Iury Cascaes (guitarras e vocais) e Vitor Emanuel (bateria e backing vocal).
Procurando entender de onde esses caras tiraram inspiração pra fazer um som ao mesmo tempo alternativo e original, mesmo com tão pouca idade, procurei a banda para uma entrevista. Dá uma sacada abaixo como a molecada enxerga a cena atual, assim como quais serão seus próximos passos:
- Como uns moleques de Santos se aproximaram da sonoridade que vocês chegaram com o Scuba Divers? Numa época em que o sertanejo universitário impera entre pessoas da idade de vocês, da onde surgiu o interesse por bandas alternativas dos anos 80 e 90?
A banda no palco - pouca idade e som de gente grande
Comigo e com Maurício foi uma influência familiar. Crescemos em contato com bandas como Legião Urbana, Men At Work, Tears For Fears, The B52's, The Police, U2 e todas essas bandas clássicas dos anos 80. Com a internet, foi uma questão de tempo para explorarmos melhor as bandas que já conheciamos e encontrar outras novas, como The Smiths e The Cure.
A ideia da banda surgiu na mesma época em que comecei a prestar mais atenção em Indie Rock e Rock Alternativo, grupos como Kings Of Leon, Placebo, The Killers e Weezer acabaram me levando a descobrir Pixies, Sonic Youth, My Bloody Valentine e a partir daí não tinha mais volta, a barulheira entrou de vez no nosso som.
Eu não lembro exatamente como o Nirvana entrou na vida do Iury, mas sei que foi o ponto de virada para ele nesse sentido, de mergulhar fundo na sonoridade alternativa. Iury: sinceramente, eu não sei de onde veio essa minha verve pros lados do rock e desse tipo de som, porque aqui em casa ninguém nunca ligou pra nada disso, e nem muito bem os meus amigos. Deve ter sido meu irmão, que sempre ouviu muito punk rock, que me influenciou, e daí eu fui fuçando por mim mesmo até chegar no Nirvana, a banda mais significativa pra mim.
- Qual o estágio atual da banda? Esse é o primeiro disco, certo? O que vocês projetam para o futuro?
Capa do primeiro play
Agora que lançamos o CD, o próximo passo natural é a sua divulgação. Isso inclui desenvolver material multimídia, como a série "Por Trás das Letras", realizar shows e mandar a música para rádios, sites, blogs e canais de notícia no geral. Estamos também planejando um videoclipe e estamos bem animados com isso!
Paralelo à divulgação do CD, já estamos trabalhando em novo material. Temos três compositores ativos na banda, então já temos músicas para dois discos, sendo que muitas delas já estavam prontas antes de começarmos a gravar o primeiro. Já se tornou até difícil administrar tanto repertório, então desenvolvemos o hábito de nos reunir às quintas para gravar demos e compor em nosso projeto de home studio. Ouçam o CD físico até o final para terem uma surpresinha do que estamos fazendo nas quintas feiras!
- Na visão de vocês, qual a melhor estratégia de divulgação em tempos de interesse tão superficial por música?
Focamos nossa divulgação na internet, tanto pelas redes sociais da banda quanto por canais sobre música, como sites, blogs e páginas de Facebook. Não temos acesso aos grandes meios de comunicação, como rádio e TV, mas por nosso som seguir um direcionamento alternativo, nem temos perfil para estar nesse tipo de mídia. Tocamos uma música de nicho e a internet continua sendo a melhor arma para alcançar esse público.
- Como vocês consomem música atualmente? Streaming? Youtube? Ainda compram mídia física (CDs, DVDs e afins)?
Principalmente por streaming, em sites como Spotify, Youtube e Bandcamp. Mas também adoramos mídia física, temos o costume de comprar CDs dos nossos artistas prediletos e compraríamos mais ainda se os preços fossem mais convidativos. Além de, é claro, ir a shows locais e internacionais.
Acho que esse carinho pelo release físico é bem nítido no lançamento de nosso primeiro CD. Fizemos questão de lançá-lo em capa de acrílico, em oposição as capas de papelão que grande parte das bandas menores optam por usar. Também contratamos o artista Conehorror para fazer uma arte exclusiva para a capa e o Maurício se encarregou de montar todo o encarte. É importante que a apresentação do material seja condizente com o quanto de carinho temos pela música ali presente.
- A que vocês atribuem o fato do rock estar tão em baixa na grande mídia? E por que o jovem brasileiro médio deixou de se interessar por rock?
Eu não acho que isso seja 100% verdade. A muito pouco tempo atrás vimos Cristopher Clark (de Santos) ganhar um reality show e bandas como Scalene, Supercombo, Malta e Suricato tocando em programas populares da TV aberta. Se formos para o cenário internacional, temos bandas de rock alcançando popularidade mainstream de tempos em tempos.  O Muse lotou vários shows no Brasil, Arctic Monkeys ficou imenso com o lançamento de seu último disco, Kings Of Leon se mantém relevante há um bom tempo. Isso sem contar a cena de Post-HC que não conheço tanto assim, mas sei que tem muitos fãs do movimento.
O jovem sempre foi e sempre será uma esponja que adere as tendências de sua geração, a não ser quando a influência familiar ou de círculos de amizade fala mais alto. Aqui no Brasil temos gêneros regionais e periféricos fortes, o rock jamais teria o peso que ele tem em um num país como a Inglaterra, por exemplo. O Lollapalooza está aí para provar como ainda assim existem muitos jovens interessados em rock. O festival agrega rap, eletrônico, pop, mas headliners como The Strokes, Arcade Fire e Muse deixam claro que o Rock ainda tem seu espaço entre o público jovem.
- Como vocês avaliam a cena rock na Baixada Santista? Existem outras bandas que consideram interessantes? Casas pra tocar? Existe de fato uma cena?
Temos muitas bandas aqui na Baixada Santista, então com certeza temos sonoridades interessantes para a maioria dos gostos, mas acho que o único movimento que poderíamos chamar de "cena" por aqui é o movimento HC que tem um underground bem consolidado na região.
Acho que o ponto mais fraco da cena regional é a falta de casas de show interessadas em dar espaço para som autoral. Mas só reclamar não adianta. Uma casa de show é um negócio e se colocar o mesmo cover de AC/DC para tocar todo final de semana dá retorno no fim do mês, para que arriscar no som autoral da molecada? Por esse exato motivo comecei a organizar o festival de música Alternapalooza, em uma tentativa de criar um nicho para som alternativo na região.

De um modo geral, o rock segue por aí, em nichos como a própria banda citou, mas com muita qualidade como é o caso desse Scuba Divers, basta interesse e boa vontade que descobrimos novas bandas talentosas e dispostas a dialogar com seu público.
Torçamos e sigamos acompanhando esses moleques promissores e que eles tenham longa vida na música.
Vou quebrar teu galho e deixar os links mastigadinhos abaixo (não tem desculpa hein mané?!):
Toma ainda uma amostrinha de um dos destaques do álbum, "I Wanna Die In London":


David Oaski

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

RESENHA: DIAS DE LUTA - O ROCK E O BRASIL NOS ANOS 80

Capa da 2ª edição do livro
Lançado originalmente em 2002, com relançamento em 2013 (após esgotamento da 1ª edição), “Dias de Luta: O Brasil e o Rock dos Anos 80” faz alusão ao título do clássico da banda paulistana Ira, presente em seu segundo álbum “Vivendo e Não Aprendendo”, de 1986 e trata-se de um relatório informal cronológico da década citada, detalhando as origens do surgimento, ascensão, afirmação e queda do período em que o pop rock nacional ditou as regras no mercado musical e de entretenimento no Brasil, transformando o ritmo num produto vendável para um público até então pouco explorado como consumidor em potencial: o jovem.

Escrito pelo jornalista Ricardo Alexandre, que possui ampla experiência na cobertura cultural dos anos 90 pra cá, o autor elucida com detalhamento diversas questões e fatores que causaram essa explosão do rock como uma cena, assim como os excessos que causaram sua derrocada. Por não estar inserido como participante ativo da época o autor esbanja imparcialidade em análises e causos contados por artistas do naipe de Renato Russo, Paulo Ricardo, Leoni, Léo Jaime, Roger, Herbert Vianna, Dé Palmeira, entre muitos outros.

O início dessa explosão da cultura jovem em terras tupiniquins tem seu start com Rita Lee, no álbum que leva seu nome, de 1979. Hits como “Mania de Você” e “Doce Vampiro” foram o abre alas dessa identificação de um novo público pronto para ser explorado, coisa que nem os medalhões citados, nem os artistas em voga na época como Elis Regina, Gonzaguinha ou Ivan Lins conseguiam. Tampouco, as bandas de pop rock que são definidas brilhantemente por André Midani (messias das gravadoras na época) como rabo de geração, entre elas Herva Doce, A Cor do Som, Roupa Nova, 14 Bis e Rádio Táxi, bandas que apesar de competentes tecnicamente não conseguiram se comunicar nem com um novo público sedento por artistas com capacidade de usar sua linguagem, nem com os tradicionalistas da MPB.

Havia todo um clima de efervescência cultural no Rio de Janeiro no começo da década de 80, as discotecas já se mostravam enfraquecidas e a rapaziada ansiava por novidades. E foi o que ocorreu com o surgimento do Circo Voador, um ambiente construído para abrigar todo tipo de manifestações artísticas, de bandas de rock, grupos de dança, teatro e até mesmo exposições.

Capa do primeiro LP da Blitz
Diante desse ambiente, não tardou a surgir a primeira banda a estourar em âmbito nacional nos anos 80, a Blitz. Com membros oriundos do grupo teatral Asdrúbal Trouxe o Trombone, a banda capitaneada por Evandro Mesquita conseguiu lançar seu compacto no ano de 1982, com o clássico “Você Não Soube Me Amar”, que trazia uma nova linguagem, ácida e sagaz, com ritmo folk/reggae/rock e narrativa de história em quadrinhos atingiu em cheio a molecada ávida por novidades longe do blá blá blá intelectual dos tropicalistas. No mesmo ano a banda lançaria seu primeiro álbum cheio: “As Aventuras da Blitz”, que ainda trazia outro clássico “Mais Uma de Amor (Geme Geme)” que veio pra consolidar a banda como febre nacional, presente sábado sim outro também no programa do Chacrinha na rede Globo e fazendo turnês nacionais de grande proporção.


O sucesso da Blitz serviu para que as gravadoras finalmente abrissem os olhos para o universo que havia sido desbravado por Rita e expandido pelo grupo carioca, o que fez com que os executivos buscassem por outros nomes, o que veio a calhar em oportunidades pra gente como Gang 90 (já conhecida dos festivais de música), Kid Abelha & Os Abóboras Selvagens, Lulu Santos, Os Paralamas do Sucesso e Lobão (egresso da Blitz), todos alcançando destaque nacional, uns de primeira, como o Kid, outros com alguma insistência, caso de Lulu, que já estava beirando os 30 anos e trabalhava em gravadora.

O sucesso das bandas gerou o surgimento de mais casas de show e discotecas para apresentações e o fortalecimento da Rádio Fluminense, incentivadora e primeira a botar a maioria das bandas dessa geração no dial.

Banner da 1ª edição do Rock in Rio
O auge desse primeiro momento do rock nacional na década de 80 se deu através do Rock in Rio, festival de proporções mundiais organizado pelo empresário Roberto Medina no Rio de Janeiro em 1985. O Brasil até então cenário miado de grandes shows internacionais teria oportunidade de ver grandes bandas do rock mundial em seu auge, como Iron Maiden,  Queen, AC/DC, Scorpions, entre outros gigantes da época. O festival que durou 10 dias possuía estrutura gigantesca da chamada Cidade do Rock e, entre os medalhões foram inseridas atrações brasileiras, dentre as quais bandas novas de pop rock, como Barão Vermelho, Kid Abelha, Paralamas, Lulu Santos e Eduardo Dusek.


Apesar das polêmicas das poucas condições oferecidas aos brasileiros, os artistas conseguiram se destacar entre mortos e feridos, de forma que o festival deixou de herança um culto exacerbado que dura até hoje às grandes bandas que vieram à época e o rock nacional no dia seguinte tomava de assalto a música brasileira, com bandas com agendas lotadas e altas vendagens de discos. O autor faz um curioso exercício de imaginar se Medina e sua trupe tivessem trazido o que realmente era relevante para a música jovem naquele momento, bandas como The Smiths, The Cure e U2. Qual teria sido a influência dessas bandas num festival do porte do Rock in Rio no gosto do jovem médio brasileiro? Nunca saberemos.

O sucesso absoluto do Rock in Rio fez com que cenas de outros lugares do Brasil conquistassem também seu espaço no mercado, como os paulistanos do Ultraje a Rigor, com seu arrasa-quarteirão “Nós Vamos Invadir Sua Praia” (título com uma clara alusão ao domínio dos cariocas no rock nacional), Titãs do Iê Iê (que somente se firmaram no terceiro álbum, o clássico “Cabreça Dinossauro”, de 1986) e do Ira (já sem o ponto de exclamação e o fenomenal Edgard Scandurra nas guitarras).; os baianos do Camisa de Vênus (que se tornaram um clássico sem se render à indústria) do clássico disco ao vivo “Viva”, de 1986; os gaúchos do Engenheiros do Hawaii e Replicantes; e os brasilienses da Legião Urbana, da Plebe Rude e do Capital Inicial.

Já com a cena consolidada e cada vez mais bandas surgindo era hora do rock atingir seu auge no mercado cultural brasileiro, e esse momento se deu em 1986, com os paulistanos do RPM e seu álbum ao vivo “Rádio Pirata Ao Vivo”. A banda que havia lançado o primeiro álbum “Revoluções Por Minuto” no ano anterior havia feito sucesso com singles como “Louras Geladas”, “Olhar 43” e a faixa título, porém ao decidir chamar Ney Matogrosso para produzir sua turnê e serem contratados pelo mega empresário Manoel Poladian, os músicos aumentaram suas ambições, com estruturas de som gigantescas, toneladas de equipamentos, gelo seco e tudo mais de melhor que se dispunha na época. A banda recém iniciara o processo de composição de um segundo álbum quando estourou nas rádios do Brasil inteiro uma versão pirata de “London London”, cover de Caetano Veloso. Ressentidos por não estarem capitalizando o sucesso (já que a música não estava no primeiro álbum e os compactos não faziam mais parte das estratégias das gravadoras) a banda resolve lançar um segundo registro ao vivo, fato tido como inédito no mercado musical mundial até então.
RPM no auge da popularidade

O disco ao vivo trazia em seu repertório os sucessos do único álbum lançado pela banda, somados à inédita “Alvorada Voraz”, à cover “Flores Astrais”, dos Secos & Molhados, além da famigerada “London London” e da instrumental “Naja”. O sucesso foi estrondoso, alcançando 3 milhões de cópias vendidas no decorrer dos anos, sendo até hoje um dos discos mais vendidos em todos os tempos no país.

 O sucesso do RPM foi gigantesco, digno de beatlemania, com histeria de fãs em toda cidade que a banda passasse, todos integrantes (principalmente o cantor e baixista Paulo Ricardo) se tornaram ‘sex symbols’, frequentavam todos programas de auditórios, eram capas de revistas e chegaram a estrelar um Globo Repórter especial, dedicado exclusivamente à banda.

Como era de se esperar de uma banda tão inexperiente, todos os excessos foram seguidos à risca, como manda a boa e velha cartilha do ‘sex, drugs and rock and roll’ e a derrocada veio logo. Em meio a desentendimentos e egos ultra-inflados, a banda se separaria em 1987, com retornos intermitentes desde então.

O sucesso estratosférico do RPM é apontado por diversos músicos, tais como Roger e Herbert, como um divisor de águas de todo aquele cenário do pop rock nacional, pois a competitividade e o ciúme entre as bandas tomou o lugar da parceria e cumplicidade do início da década.

Legião - capitaneada por Renato Russo
Oriunda de Brasília, a Legião Urbana foi outra banda a alcançar sucesso parecido com RPM, porém com comoção mais messiânica em torno do seu líder, Renato Russo. Ao invés de sex symbol, Renato era visto como um guru da geração, o poeta que muitos seguiriam durante toda década. Os álbuns “Dois”, de 1986, “Que País É Este”, de 1987 e “As Quatro Estações”, de 1989 ajudaram a ampliar essa aura, com a banda fazendo turnês cada vez maiores, chegando ao ponto da banda cansada de incidentes por falta de estrutura só realizar apresentações em grandes ginásios e estádios de futebol (situação pensada somente para bandas internacionais consagradas nos dias de hoje).


Cazuza - poeta exagerado
Outro pilar dessa geração foi Cazuza, vocalista do Barão Vermelho nos três primeiros álbuns da banda, deixou o grupo carioca pouco depois do Rock in Rio, em 1985, iniciando uma frutífera carreira solo, interrompida precocemente por sua morte em decorrência da Aids em 1990, aos 32 anos. Considerado outro poeta da geração, Cazuza possuía influências diferentes de Renato Russo, pois ouvia desde sempre muita música brasileira, era fã confesso de Cartola e Lupcínio Rodrigues, além de ser um ‘bon vivant’ adorava frequentar os bares e botequins cariocas sendo famosos seus porres homéricos e baladas desconcertantes. Apesar de ter falecido muito jovem, deixou canções que fazem parte do cancioneiro popular tupiniquim como “Maior Abandonado”, “Ideologia”, “Exagerado”, “O Tempo Não Para”, entre outras.


Apesar do surgimento de bandas interessantes até o final da década, como os cariocas do Picassos Falsos, Hojerizah e Uns e Outros; e os gaúchos do Nenhum de Nós a derrocada do pop rock nacional como movimento dominante na cena de entretenimento no Brasil foi inevitável. As razões são diversas, como a falta de comunicação por parte das bandas com o público, buscando cada vez mais fazer ‘o que desse na telha’ ao invés de expressar a realidade do dia a dia do povo; o amadurecimento das bandas que se distanciaram da ingenuidade dos primórdios da década; o surgimento de bandas de qualidade questionável nas mãos de empresários gananciosos das gravadoras; uma certa subserviência dos roqueiros aos tradicionalistas da MPB, como Caetano, Gil, Chico Buarque e Milton Nascimento; vale ressaltar também o surgimento ou fortalecimento de ritmos com maior apelo popular como lambada, axé music e sertanejo, que rapidamente dominaram o mercado; outro fator foi o famoso jabaculê ou jabá, que nada mais é do que aquela verba fornecida pela gravadora para a rádio disponibilizar seu espaço para determinado artista, ou seja, a arte sendo tratada única e exclusivamente como um negócio.

A protuberância dos Titãs
Três bandas ainda conseguiram atravessar a década de 90 com prestígio, foram elas: Paralamas, Legião e Titãs, porém em 1992 com o lançamento de “Os Grãos”, “V” e “Tudo Ao Mesmo Tempo Agora”, respectivamente as três bandas também se afastaram dos holofotes, pois os álbuns foram mal recebidos por público e crítica.

Os espaços para o rock só foram se abrir novamente com a geração seguinte, de Raimundos, Chico Science e Skank, sendo que os oitentistas só foram retomar o prestígio no começo do novo milênio, quando retornaram às paradas e foram postos na condição de clássicos, muito por conta do sucesso do formato Acústico Mtv, que tiveram gravações de Capital Inicial, Titãs, Ira, entre outros.


Considerações Finais

O autor na época do lançamento da 1ª edição
Ricardo Alexandre possui um texto fluente, sem firulas, daqueles que te prende até escrevendo receita de bolo. É verdade que o tema ajuda, a década de 80 foi fascinante, não à toa o interesse dos mais jovens é frequente e é a década mais lembrada em revivals e tudo mais. O fato é que o autor dividiu a obra em ordem cronológica e com capítulos curtos, falou de todas as grandes bandas surgidas e consagradas no período, uniu causos dos músicos que participaram de toda aquela agitação ao contexto político/econômico/social que o país viveu, formando, de forma despretensiosa um panorama sócio-cultural da década.

Algumas das bandas surgidas na época seguem como pilares do pop rock nacional, outras o tempo esqueceu e outras seguem a carreira nostálgica com retornos esporádicos. O fato é que é de se invejar quem teve oportunidade de experimentar viver num período de tanta ebulição cultural, de tanta gente bacana e interessante a frente das culturas de massas, rapaziada com a cabeça pra frente, se expressando de forma livre e sagaz pela primeira vez no país, gente por quem se orgulhar de ter como ídolos. Se olharmos o cenário pop atual, mesmo sem nenhum pingo de saudosismo, custamos a encontrar algo de espontâneo, com caráter cultural relevante ou até mesmo divertido. Qualquer um com mais de dois neurônios percebe como nossa cultura popular anda rasa.

A análise que fica é de se encontrar os porquês. Por que na década de 80 as pessoas se interessavam por letras inteligentes? Por que bandas tidas como alternativas vendiam centenas de milhares de discos? Por que os ídolos se manifestavam e tinham o que dizer? Por que as pessoas buscavam mais informação do que simplesmente absorviam o que chegava até elas? Não é simples identificar essas respostas, mas me parece que ficamos mais preguiçosos diante das facilidades da Internet, da comodidade das redes sociais, ficamos cercados pelos logaritmos de tudo que concordamos e aquilo fica martelando à sua cabeça em malas diretas e cantos de tela. O mundo é urgente. Qual a última vez que você ouviu um álbum inteiro de um artista? A relação com a música de uma forma geral mudou e não resta dúvidas que foi pra pior. Não só culturalmente como intelectualmente estamos retrocedendo, basta ver a intolerância, a violência e os comuns apelos pela volta do regime militar pra vermos que está acontecendo algo de errado no país e no mundo.

Esse livro é um suspiro de um tempo em que parecíamos que íamos finalmente decolar e virar um país bacana, mas assim como a decepção causada por Fernando Collor (o primeiro presidente eleito pelo povo de forma democrática após o fim do Regime Militar), os tempos modernos cantados por Lulu Santos parecem ter durado somente uma década.


David Oaski







quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

TOP 5: ÁLBUNS ROCK NACIONAL ANOS 80

Como disse num post recente o rock nacional segue produzindo excelentes bandas, porém nem por isso deixo de gostar da fase tida como clássica do rock nacional, os anos 80. Na época o rock era a bola da vez, a galinha dos ovos de ouro das gravadoras, os queridinhos dos programas de auditório e presença dominante nas rádios AM e FM.

A comparação é esdrúxula, mas o rock nos anos 80 foi o que é hoje o sertanejo universitário, uma mania que se espalhou por todo o país, só que convenhamos, uma mania com muito mais conteúdo e gente inteligente envolvida. Claro que no meio dos talentos acabaram aparecendo algumas porcarias que o tempo fez questão de esquecer.

Muitas das bandas surgidas naquela época, hoje possuem status de classic rock do nosso país, algumas lidando bem com a passagem do tempo como o Capital Inicial, outras ficando pelo caminho, outras caindo no ostracismo e outras vivendo de celebrar o próprio passado ao invés de produzir e compor coisas novas.

Grandes bandas dos anos 80 temos aos montes, porém poucas conseguiram o êxito de produzir um disco inteiro bom, com composições ricas do início ao fim, formando obras enxutas, fazendo jus ao conceito de álbum, aquele punhado de canções que juntas passam a fazer mais sentido do que fariam avulsas, que retratam um momento, um conceito, uma estética do que a banda se propõs a fazer naquele trabalho.

Pensando nisso, resolvi listar meu cinco álbuns de rock nacional preferidos dos anos 80. A lista não está numa ordem de preferência, mas são os discos que vou ouvir pro resto da vida.

Lá vai:


Ira! – Vivendo E Não Aprendendo

Como falei antes, não são poucos os bons álbuns lançados nos anos 80, mas é difícil algum deles superar o segundo álbum do Ira!, banda paulista formada em 1981, que no auge contava com Nasi no vocal, Edgard Scandurra na guitarra, Ricardo Gaspa no baixo e André Jung na bateria.

Coeso, lírico e extremamente potente o disco, lançado em 1986, foi o maior êxito comercial da banda, além da manjada “Envelheço Na Cidade”, havia também a forte “Dias De Luta”, a romântica “Flores Em Você” (que foi tema de novela no horário nobre global), a belíssima “Quinze Anos (Vivendo E Não Aprendendo)” e as pouco lembradas, mas não menos ferozes “Casa De Papel”, “Vitrine Viva” e “Nas Ruas”.

O disco é urbano, cru e direto, com exceção de “Flores Em Você” e marcou época com belos arranjos e canções alinhadas no álbum mais consistente do rock nacional dos anos 80. Melodias incríveis oriundas do talento de Scandurra e toda a presença vocal de Nasi fizeram desse álbum um marco na música brasileira.


Carnaval – Barão Vermelho

Ainda se recuperando do baque da saída de Cazuza da banda em 1985, o Barão Vermelho, a melhor banda da história do rock nacional, lançava em 1988 a joia chamada “Carnaval”. Contando somente com três integrantes fixos na formação, Frejat (vocal e guitarra), Dé (baixo) e Guto Goffi (bateria), a banda adicionou às guitarras stoneanas já tradicionais percussão e fez um disco sensacional que os recolocou no primeiro time do rock nacional.

O disco conta ainda com participação de letristas do naipe de Humberto Gessinger, Arnaldo Antunes e Paulo Miklos. Os destaques são a sensacional “Pense E Dance”, a feroz “Não Me Acabo” e a cadenciada “Lente”.

Rock n’ roll na essência cantado em português como pouco se viu no rock brazuca.


Dois – Legião Urbana

Por mais que “Eduardo E Monica” e “Tempo Perdido” toquem em todos os programas de flashback das rádios não há como negar que o segundo disco da Legião, lançado em 1986 é um clássico.

As famosas melodias simples calcadas no rock britânico dos Smiths e Joy Division serviam de base para Renato Russo declamar suas letras fenomenais. “Acrilic On Canvas”, “Andrea Doria”, “Metropole”, “Daniel Na Cova Dos Leões”, enfim, o disco é bom de ponta a ponta e por mais que seja clichê citar a Legião, é impossível fugir desse lugar comum.


Nem Polícia, Nem Bandido – Golpe de Estado

Uma das bandas mais subestimadas do rock nacional, o Golpe de Estado nunca desfrutou do reconhecimento e da fama de seus contemporâneos do Ira! E Titãs, por exemplo, mas fez como poucos hard rock brasileiro.

Com o ótimo Helcio Aguirra nas guitarras e o louco Catalau nos vocais, a banda lançou ótimos discos e esse mostra o grupo no auge, com destaques para as faixas “Paixão”, “Filho De Deus” e a faixa título.

A recente morte do guitarrista Helcio Aguirra trouxe de volta o nome do Golpe às manchetes de rock. Espero que com o tempo eles ganhem, mesmo que com um atraso monstruoso, o reconhecimento merecido.


Jesus Não Tem Dentes No País Dos Banguelas – Titãs

Apesar do clássico absoluto dos Titãs ser considerado o álbum anterior, de 1986, “Cabeça Dinossauro”, prefiro a linguagem e agressividade de “Jesus...”. Ainda com oito integrantes, os paulistas compuseram faixas do naipe de “Lugar Nenhum” e “Diversão”, duas das melhores da discografia da banda, além de “Corações E Mente”, “Comida” e “Mentiras”, é muita coisa boa.






E pra você, faltou alguma coisa? Discorda? Concorda? Quem sabe rola uma segunda parte do post em breve. Deixe suas dicas nos comentários...


David Oaski




quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

A NOVA GERAÇÃO DO ROCK NACIONAL - PARTE 1

Todo ano ao anunciarem os números de músicas com maiores execuções nas rádios do país a surpresa é enorme: onde estaria o rock? Salvo raras exceções, como O Rappa, Charlie Brown Jr., Capital Inicial, Jota Quest ou Skank é raro alguma outra banda obter espaço em rádios populares.

Mas a observação que faço desses estudos é mais objetiva, se você quer ouvir novos sons no rock nacional procure em qualquer lugar, menos nas rádios populares. Internet, rádios online, blogs e portais, esses são os caminhos para descobrir novos sons. Caso você não tenha tempo de procurar, então se contente com Gustavo Lima ou outra porcaria qualquer.

Para mostrar que o rock nacional continua produzindo diversas bandas de qualidade, resolvi listar alguns novos nomes que vem fazendo ótimos trabalhos e obtendo ótima repercussão com gravações e turnês executadas na raça, sem ajuda de governo ou patrocinadores.

Lembrei de algumas bandas e resolvi dividir o post em duas partes. Abaixo você vê a primeira leva de novas boas bandas do rock nacional:


Vespas Mandarinas

Tudo nessa banda é legal, a começar pelo nome, composto agressivo, soa bem. Formada por músicos experientes na cena nacional: Chuck Hipolitho (ex Forgotten Boys), Thadeu Meneghini (ex Banzé) e André Dea (que também toca no Sugar Kane), contam ainda com o baixista Flávio Guarnieri.

A banda paulista lançou até aqui duas demos, “Sasha Grey” e “Da Doo Ron Ron” e um álbum cheio, “Animal Nacional” que de cara concorreu ao Grammy Latino. Os caras trazem as melhores influências do rock nacional, de Titãs a Skank, de Paralamas a Inocentes, eles abordam temáticas urbanas com excelentes letras e melodias trabalhadas dando ênfase às guitarras dos dois front man (Thadeu e Chuck).

É daquelas bandas que podem furar esse bloqueio e adentrar nas rádios populares. Eles parecem dispostos a isso.

Saca só a qualidade do som dos caras:



Vivendo do Ócio

Banda baiana de Salvador, fundada em 2006 e que ganhou destaque ao vencer o festival Gas Sound, que lhes deu direito de gravar o excelente álbum “Nem Sempre Tão Normal”, de 2009.

A banda surgiu com forte influência do indie rock dos contemporâneos do The Strokes, Franz Ferdinand e afins, porém no segundo lançamento “O Pensamento É Um Imã”, de 2012 abriu o leque para influencia maior de bandas gringas e do rock nacional.

Capitaneada pelo guitarrista e vocalista Jajá Cardoso a banda é uma das mais promissoras do rock atual, com ótimas letras e boas referências ainda vão nos brindar com muita música boa.

Olha a música nova deles e fale que não é tão bom quanto qualquer uma dessas bandas gringas bajuladas pela imprensa especializada:




Nevilton

Nevilton de Alencar é um ótimo guitarrista e trabalha as melodias de forma excelente no power trio em que se juntam a ele o baixista Tiago Lobão e o baterista Eder Chapolla.

Oriundo do Paraná, o cara vem recebendo cada vez mais elogios da crítica e ganhando o público com suas canções com forte apelo radiofônico e letras bastante pessoais. São dois discos lançados até aqui: “De Verdade”, de 2011 e “Sacode!”, de 2013, que está em 10 de 10 listas de melhores álbuns nacionais do ano passado e também concorreu ao Grammy Latino.

Melodias de guitarra, pop e alguns ares de MPB resumem bem o som do Nevilton. Saca só:



Supercombo

Banda novíssima oriunda de Vitória, Espírito Santo, mas consolidada em São Paulo ainda não possui nenhum álbum lançado -  o primeiro sai ainda esse mês “Amianto” e já está em pré venda no Itunes. Conta com músicos experientes na cena musical, seja como produtor ou integrante de outras bandas, todos tem rodagem e experiência para tornar esse primeiro álbum extremamente aguardado.

A música “Piloto Automático” já está tocando nas rádios jovens e o único adjetivo que consigo encontrar pra essa música é: sensacional. Um retrato da desolação das novas gerações com ótima letra e vocação pop.

Ouça e fique ansioso pelo álbum cheio:



Apanhador Só

Essa banda gaúcha surgiu em 2005 e lançou seu primeiro álbum, homônimo, em 2010 e chamou atenção pela utilização de instrumentos pouco convencionais, tanto no palco quanto nas apresentações ao vivo, incluindo gaiolas, talheres e até um pneu de bicicleta na sonoridade da banda.

Porém foi com o segundo álbum que os caras alcançaram o reconhecimento nacional, lançado no ano passado, “Antes Que Tu Conte Outra” foi eleito através de votação em alguns sites, como no renomado Scream & Yell, por exemplo, como melhor álbum nacional de 2013 e não é exagero.

Os caras aprofundaram a identidade sonora, com letras maduras e se distanciaram das constantes comparações (descabidas por sinal) com Los Hermanos e Pato Fú.
“Mordido” e “Despirocar” retratam a situação do jovem brasileiro como ninguém ainda havia conseguido traduzir em forma de canção. Movido pelos protestos ocorridos ao longo do país a banda foi a que melhor conseguiu retratar esse momento e certamente será reconhecida no futuro por isso.

Despiroque:







Em breve publicarei a segunda parte, mas se você tem alguma dica, manda aí nos comentários, pois é sempre bom compartilhar o que está rolando de música realmente boa no país. Vamos mostrar que existe muito mais do que essas listas de fim de ano apontam.

O rock tá aí e sempre vai estar, pra quem quiser!


David Oaski








terça-feira, 3 de dezembro de 2013

O "PUNK" DE BRASÍLIA


Primeiramente preciso deixar claro que adoro as bandas oriundas da capital federal Brasília. Ouvi e ouço muito Legião Urbana, Capital Inicial e Plebe Rude. Além de conhecer a história do embrião de duas dessas bandas, o Aborto Elétrico, banda que era composta pelos irmão que fundariam o Capital, Fê e Flávio Lemos mais Renato Russo, o carismático e controverso líder da Legião Urbana. Vale lembrar também que os integrantes dos Paralamas do Sucesso também cresceram e se conheceram na terra que abriga nossos políticos, apesar de terem formado a banda e se consolidado no Rio de Janeiro.

O fato é que sempre me incomoda a associação dessas bandas ao movimento punk. Eles não eram punks, nem no som, nem na atitude, é preciso deixar isso claro. O movimento punk surgido no final dos anos 70 na Inglaterra com o The Clash e os Sex Pistols e nos Estados Unidos com o Ramones sempre se caracterizou por ser formado por jovens de origem humilde, da classe operária britânica e norte americana, executando um som cru, direto, sem fírulas, com letras que tratavam de todos os temas, mas principalmente das mazelas da sociedade. Tudo isso na contramão do rock progressivo que reinava as paradas da época, com suas melodias complexas e canções longas.
Capital Inicial nos anos 80 - mais próximo da New Wave

O máximo que se pode dizer é que as bandas do rock de Brasília foram influenciadas pelo punk rock, assim como quase todas outras bandas surgidas desde os anos 80. As temáticas de muitas das letras das bandas brasilienses citadas realmente tinha cunho social e político, mas isso não faz deles punks.

Dinho Ouro Preto, vocalista do Capital Inicial é um dos que mais se refere ao movimento como punk de Brasília, porém sabe-se que ele e a maioria dos outros membros da banda tem origem de classe média alta, filhos de figurões como diplomatas, políticos e magistrados, tendo passado boa parte da infância e adolescência em outros países. Até que ponto eles realmente sofreram as mazelas da sociedade na época?

É preciso deixar claro que não quero aqui impor um debate classicista, afinal ninguém tem culpa de ter a origem que tem, tampouco podem deixar de protestar por serem de famílias abastadas, mas também é fato que eles não eram os rebeldes porra loca que pregam nas entrevistas e documentários sobre a época.

Inocentes, verdadeiro representante do punk brasileiro
Com relação às melodias nem se fala, a banda que mais se aproximava da crueza do punk era o Plebe Rude, já os outros se aproximam muito mais da new wave ou do pós punk que do punk propriamente dito.

Punk nacional de verdade era o paulista, com bandas como Ratos de Porão, Olho Seco, Cólera, Inocentes, entre outras. Essas sim têm um som sujo, veloz, cru e agressivo, com letras honestas e com integrantes em sua maioria oriundos das periferias da cidade.

A questão aqui não é gosto pessoal, particularmente até prefiro as bandas brasilienses, mas numa contextualização histórica, o punk nacional deve ser lembrado pelas bandas que realmente eram fiéis ao movimento original. Fico imaginando os caras do The Clash vendo os “punks” de Brasília, eles iriam se mijar de rir.

Do it yourself.



David Oaski


terça-feira, 27 de agosto de 2013

RESENHA: SELVAGENS À PROCURA DE LEI - SELVAGENS À PROCURA DE LEI




Nota: 7,0

Todos aqueles que acompanham de perto o mundo do rock se depararam nos últimos dias em portais de notícias, blogs, rádios online e afins com o nome de uma banda cearense que acaba de lançar seu segundo e mais recente álbum: Selvagens À Procura de Lei.

Caras de garoto, música de gente grande
Por ter sido elogiada por grandes nomes do rock nacional, como Dinho Ouro-Preto, Tico Santa Cruz e Dado Villa Lobos, a banda vem sendo taxada como a nova salvadora da lavoura do rock nacional, carga de responsabilidade exagerada e desnecessária a ser carregada pelos rapazes.
O Selvagens À Procura de Lei (ou SAPDL) foi formado em 2009 e conta com Rafael Martins (vocalista e guitarrista), Gabriel Aragão (vocalista e guitarrista), Caio Evangelista (baixo) e Nicholas Mgalhães (bateria).

Desde o início a banda se diferencia por mesclar influências de rock com MPB, música nordestina e soul music. Mesmo que no início essas influências não transparecessem no som da banda, os caras fizeram questão de mostrar seu amadurecimento no aguardado lançamento de seu segundo álbum, o primeiro por uma grande gravadora, a Universal.

O álbum se desenvolve através de um teor melancólico, com melodias mais arrastadas como em “Despedida”, que possui ótimo auxílio nos vocais do baterista Nicholas e como o nome sugere narra o triste fim de um relacionamento. “Sr. Coronel” tem um quê de soul, com teclados permeando a melodia, assim como “Crescer Dói”. Já “Mar Fechado” é uma canção triste, que lembra o Los Hermanos e possui um belo solo de guitarra.   

A banda se mostra muito entrosada com as guitarras costurando o embrião das melodias, transpirando energia e disposição e a cozinha se mostra coesa, mostrando a química entre os integrantes. Tal química é vista transbordar nos pontos altos do play: “Massarrara”, que lembra o indie rock do começo dos anos 2000, de Strokes, Arctic Monkeys e Franz Ferdinand; “Brasileiro” é o primeiro single e possui ótimo riff e letra, que mostra algumas características não tão invejáveis de nosso país e nosso povo; “Enquanto Eu Passar Na Sua Rua” é uma balada pop com ótimo refrão, bela melodia e vocais entrelaçados em vários momentos; e “Mucambo Cafundó” traz à tona toda vocação pro rock dos nordestinos, cujo título se refere a um personagem e suas desventuras na terra natal da banda, Fortaleza.

A diversidade de influências e maturidade da banda ainda é notada na viajante e psicodélica melodia de “Juventude Solitude”, na melodia que remete à Weezer de “Carrossel Em Câmera Lenta” e na balada também repleta de teclados com visão otimista fechando o disco “O Amor Existe, Mas Não Querem Que Você Acredite”.

A banda em 2013
Tenho visto um misto de reações ao se analisar o álbum do SAPDL, de forma que muitos esperando ouvir a salvação do rock nacional se mostram frustrados. Outros exaltam a banda como tal e a compara à geração de ouro do rock feito no Brasil nos anos 80. A meu ver, as análises não podem ir nem tanto ao céu, nem tanto a terra, pois se trata de uma banda recente, que já se mostrou talentosa e promissora, porém por ainda estar no seu segundo lançamento, o primeiro com produção mais elaborada e que marca a mudança da banda para as grandes metrópoles, ainda tem muito a evoluir.

Particularmente, prefiro a pegada rock das canções dos cearenses em relação à melancolia, no entanto a banda tem o mérito de retratar de forma plausível e original os anseios e angústias do jovem brasileiro moderno, já que esse segmento é muito mal abordados pelos seus contemporâneos que narram dramas de Facebook e shopping center.

Mais uma grata surpresa no rock nacional, os garotos mostram que idade não tem nada a ver com qualidade das letras e melodias, pois fizeram um álbum honesto, com diversas mensagens marcantes, como cantam em “Brasileiro” (..Desculpe se a letra está ficando difícil é que eu nunca treinei para fazer comício...).

Que eles mantenham esse espírito e sigam levando rock n’ roll Brasil afora.


David Oaski