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terça-feira, 8 de abril de 2014

RESENHA: SOUND CITY


Nota:8,5

Documentário dirigido pelo líder do Foo Fighters, Dave Grohl, Sound City conta a história do estúdio americano de mesmo nome, inaugurado em 1972, que ficou famoso por realizar gravações de grandes artistas, ter excelente qualidade na gravação e se tratar de um espaço despojado e de aspecto sujo.

A lista é grande, mas o estúdio recebeu gente do naipe de Fleetwood Mac, REO Speedwagon, Rick Springfield, Nirvana, Metallica, Rage Against The Machine, Slipknot, entre muitos outros. Em meados dos anos 70 e primeira metade no início dos anos 80 o estúdio teve seu primeiro grande momento, com procura de diversos artistas devido à notável qualidade de gravação analógica, tendo como destaque o som da bateria, citado por muitos dos entrevistados como único.

No final dos anos 80, com o advento da tecnologia nas gravações, a procura pelo Sound City decaía gradativamente e o responsável por resgatar o estúdio das cinzas foi o Nirvana, com seu clássico improvável: “Nevermind”, de 1991, que abriu as portas pra toda uma nova geração que iria atrás daquele som de guitarras altas e cozinha fantástica que as mesas de som do lugar proporcionavam.

O que tornava o som do estúdio tão especial, segundo os artistas e técnicos entrevistados era a mesa de som Neve, produzida sob encomenda por um engenheiro, a mesa absorvia um som orgânico através de fitas, o que tornava o trabalho do produtor muito mais árduo. Outro detalhe era o espaço das salas, que naturalmente tinham um excelente poder de captação.

A fachada nada suntuosa do estúdio
É curioso notar nos depoimentos, as falas sobre o aspecto do lugar, já que todos destacam a falta de organização e o aspecto deplorável do estúdio. Mesmo recebendo tantas estrelas eles nunca se preocuparam em ostentar aparência, mas sim com a música e as gravações em si.

Com a queda vertiginosa do mercado fonográfico e o avanço brutal das tecnologias de gravação que permitem que um cara grave tudo no seu notebook, o estúdio finalmente fechou as portas recentemente, mas um dos seus principais entusiastas, o diretor do documentário Dave Grohl resolveu comprar a mesa Neve e realizar umas jams com alguns dos músicos que passaram por lá, dessas jams nasceu a trilha sonora do documentário, que é fantástica, com participações de Trent Reznor, Josh Homme, Paul McCartney, Rick Springfield, entre outros. A trilha é arrebatadora.

Dave Grohl viajando no som da mesa mágica
Ao longo dos depoimentos, conforme a história é contada por gente como Neil Young, Tom Petty, Josh Homme e funcionários e produtores que trabalharam no estúdio, nota-se que o foco da produção é no amor que a música desperta, no quanto aqueles marmanjos são envolvidos afetivamente pela música.

É bonito de se ver e como Josh Homme diz: “A internet é ótima, mas ela não tem lojas de discos, livrarias e não tem o Sound City”, ou seja, muitas experiências fascinantes de caráter orgânico não podem ser adquiridas no mundo virtual.



David Oaski

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

RESENHA: BOTINADA: A ORIGEM DO PUNK NO BRASIL


Nota: 7,5

Botinada: A Origem do Punk no Brasil é um documentário lançado no ano de 2006, dirigido pelo grande jornalista musical Gastão Moreira, que visa elucidar o surgimento da cultura punk rock no Brasil no final dos anos 70 e começo dos anos 80, seu desenvolvimento e seu legado nos tempos atuais.

Através de entrevistas, matérias da época (jornais, revistas, rádio e TV) e fotos o documentário traça de forma fidedigna o desenvolvimento do punk na cidade de São Paulo. São diversos entrevistados, como Redson (Cólera), Clemente (Inocentes), João Gordo (Ratos de Porão), Fábio (Olho Seco), Kid Vinil, Supla, entre outros membros importantes da cena.

Diante de toda opressão que a sociedade vivia em tempos de ditadura militar, a geração jovem crescia com desejo de mudança. De mudança no visual careta da época, mudança no comportamento passivo, mudança no conformismo e o canal encontrado para dar vazão a todos esses anseios foi o punk rock.

Restos de Nada, com Clemente na formação
Tudo começou no final da década de 70, com o rock progressivo em baixa e bandas consagradas com performances cada vez mais egocêntricas, além da consolidação da discoteca. Surgiram então nos Estados Unidos e Inglaterra bandas na contramão dessa porcaria toda, eram nomes como The Clash, Ramones, Sex Pistols, Stooges, Danmed, MC5, The Jam, entre outras. Apesar de muitos dos que vieram a brilhar na efervescente cena já terem bandas, o norte para estética visual e sonora seria definido através do contato com estas bandas.

A primeira polêmica apresentada pelo documentário tem motivo no local de surgimento do movimento punk no Brasil, com os brasilienses e paulistas reivindicando cada um para si o mérito. Os brasilienses dizem que os discos chegaram primeiro lá e os paulistas afirmam que não é porque os discos chegaram que eles eram punks, além do que eram filhinhos de diplomatas, o que banaliza um pouco a vocação punk dos rebentos da capital federal.
As publicações não entendiam bem qual era a do movimetnos

Através de revistas e publicações, na maioria das vezes com informações desencontradas, a molecada foi tendo contato com os punks britânicos, porém quando questionados nas matérias de Tv da época, os próprios punks não sabiam ao certo explicar sua ideologia. Tirando o visual calcado pelas jaquetas de couro, coturnos, braceletes, bottoms e os cabelos raspados ou espetados ou moicanos, o conhecimento do movimento em si era muito raso.

Tudo era muito amador e os poucos garotos que conseguiam ter acesso aos LPs das bandas, emprestavam uns para os outros, proliferando as gravações de fitas K7. As fitas K7, inclusive, eram a trilha das baladas punk da época, que tocavam as bandas nas pistas dessa forma extremamente precária. Havia também o começo da divulgação do som punk no rádio, num programa comandado por Kid Vinil, a mesma iniciativa era feita por Marcelo Nova numa rádio em Salvador.
Apresentação caótica do Olho Seco

As primeiras bandas a serem consideradas punk no Brasil vieram no final da década de 70 e foram Joelho de Porco e Banda do Lixo, mas na efervescência do movimento vieram Restos de Nada, Ai-5, Cólera e Condutores de Cadáver. Depois com o final de algumas dessas, surgiram outras bandas, como Ratos de Porão, Inocentes, Olho Seco, Ulster, Garotos Podres, entre outras.

Vistos pela sociedade e por grande parte da imprensa como violentos, vândalos e arruaceiros, os punks paulistas não faziam muita questão de mudar essa impressão, pois formaram diversas gangues, que brigavam entre si e havia também uma enorme rivalidade entre os punks paulistas e os punks do ABC, chegando a gerar morte e incidentes graves como bombas caseiras sendo explodidas no meio de apresentações. Todo esse caos impediu muitas vezes que o movimento se consolidasse e ganhasse mais espaço.

Toda a garra do Cólera
Quando as principais referências do movimento se entenderam e decidiram buscar a paz entre os membros as coisas começaram a fluir, com apresentações maiores e a realização do festival clássico Começo do Fim do Mundo, que uniu diversas bandas no Sesc, num festival bem organizado, mas que terminou em briga, porém desta vez nada grave.

Apesar de nenhuma banda ter atingido grande sucesso comercial, somente algumas poucas tem status cult, o movimento punk abriu caminho para todo rock mainstream que viria a seguir com bandas como Ira!, Titãs e Ultraje a Rigor. Isso sem falar na importância histórica do movimento, que sem apoio de ninguém, se desenvolveu às próprias custas em meio a porradas de todo lado, e conseguiu se firmar durante alguns anos levando ao pé da letra a cultura do “do it yourself”, batalhando no dia-a-dia, prezando pela diversão e liberdade de expressão.

Mesmo com toda descrença carregada na mensagem do punk rock, o documentário mostra que eles deixaram um legado de motivação, de que pra mudar qualquer coisa que seja, você só precisa de uma coisa: disposição.


David Oaski




quarta-feira, 17 de julho de 2013

RESENHA: SOME KIND OF MONSTER



Nota: 7,5

Some Kind Of Monster é um documentário lançado em 2004 pela banda norte americana Metallica. A princípio, o registro tinha a intenção de registrar o making of do álbum “St. Anger”, lançado em 2003, porém devido aos diversos problemas de relacionamento entre os integrantes da banda e so problemas individuais do mesmo, o filme acaba por relatar a fase mais turbulenta dos 30 anos de carreira da banda e como ela conseguiu ultrapassar as dificuldades e se manter na ativa.

As filmagens começam em 2001, apresentando logo de cara, como Lars Ulrich (bateria), Kirk Hammett (guitarra) e James Hetfield (vocais e guitarra) tiveram de lidar com a saída do baixista Jason Newsted, alegando cansaço e divergências pessoais. Esse era só o começo da tempestade.

Lars e James: Relação hostil
A banda promove o produtor do álbum: Bob Rock, a baixista provisório e segue com as gravações do que viria a se tornar o controverso álbum “St. Anger”. Durante as gravações, o empresário do grupo resolve contratar um terapeuta para ajudar nas questões internas, que segue com eles durante mais de um ano. Nota-se o quanto James e Lars têm personalidade forte e divergem sobre quase tudo, enquanto Kirk é mais contido e serve como um termômetro entre os dois egos gigantes. Diversas brigas soam infantis, com direito a James saindo batendo a porta do estúdio e Lars gritando ‘fuck’ na cara de seu ‘amigo’.

A coisa degringola quando James se interna num centro de reabilitação para tratamento do alcoolismo, travando todas as atividades relacionadas à produção do novo álbum e deixando incerto o futuro da banda. Nesse meio tempo, é mostrado um pouco mais da intimidade de Kirk (que surfa e tem uma fazenda) e Lars (que também vai a um rancho e tem uma conversa intensa com seu pai). James só voltaria um ano depois, porém sem deixar de lado as tretas com Lars, que se mostra ressentido pelo egoísmo de James só pensar em si mesmo. Ambos usam o termo controlador para definir um ao outro, as brigas são cansativas e extremamente desgastantes para todos os envolvidos.

Há também a passagem em que Lars se encontra com Dave Mustaine, do Megadeth, primeiro guitarrista do Metallica, que se mostra extremamente magoado pela forma como foi tratada sua saída da banda, Lars também demonstra algum arrependimento. Trata-se de um ponto importante, pois acaba por esclarecer uma das passagens mais polêmicas da história da banda.

Apesar de toda confusão, é interessante ver o processo de criação da banda, em conjunto no caso desse álbum. Como as ideias surgiam, como James tem insights brilhantes e como o trabalho do produtor é importante a dar o rumo correto às canções.

Por final, o documentário mostra a finalização do álbum e a contratação de um novo baixista: Robert Trujillo (que segue até hoje), que simboliza a estabilizada nos voos da banda. Juntamente vem a homenagem da Mtv, através do especial Icon, onde grandes nomes da música são homenageados e banda sai em turnê para divulgar seu trabalho.

O documentário é extenso e mostra como estar em uma banda de rock pode ser tão estressante como qualquer outro emprego, tendo em vista que diante do tamanho do grupo, muitas vezes a coisa é tratada como uma empresa, onde todos tem obrigações e abdicações, o que torna-se muito pesado diante de vaidades e egos inflados.

Além disso, serve pra mostrar uma outra face de nossos ídolos, vi um Lars chato e arrogante e um James agressivo e infantil em diversos momentos, demonstrando que os rockstars não são heróis, longe disso, possuem fraquezas e são extremamente vulneráveis.

Mesmo com todos os percalços os caras têm o mérito de terem seguido em frente, encarado os problemas de frente e seguem tocando e gravando até os dias de hoje e, ao que parece, a relação entre eles é boa, já que como dizem, depois da tempestade vem a bonança.


David Oaski


sexta-feira, 24 de maio de 2013

RESENHA - RAUL - O INÍCIO, O FIM E O MEIO



Nota: 8,0

Há algum tempo ouvi falar sobre o documentário “Raul – O Início, O Fim e o Meio”, lançado ano passado, porém só tive oportunidade de assisti-lo no Youtube pouco tempo atrás.
O filme tem pouco mais de duas horas de duração e conta através dos parceiros musicais e parceiras afetivas de Raul Seixas, sua história pessoal e musical.

Como o título sugere vemos desde Raul ainda garoto se interessando por Elvis Presley e músicos do Nordeste, passando por gravações precárias do cantor ainda criança, já anunciando sua paixão por rock n’ roll. Seu visual também era totalmente inspirado no rei do rock, com indumentária igual e topete impecável.

Sua primeira banda de destaque, como se sabe, foi Raulzito e os Panteras, que logo ganhou destaque no seu estado natal, a Bahia, após se transferindo para São Paulo, Raul trabalhou como produtor musical durante algum tempo, porém na primeira oportunidade que teve gravou seu primeiro disco. Ao lado de Edy Star, Miriam Batucada e Sérgio Sampaio lançou em 1971: “Sociedade da Grã-Ordem Kavernista Apresenta Sessão das Dez” que já dava sinais do que viria a seguir na carreira do baiano.

Porém foi com o lançamento de “Krig-Ha, Bandolo!”, 1973 que o cara mostraria a que veio, com hits do naipe de “Mosca Na Sopa”, “Metamorfose Ambulante” e a belíssima “Ouro De Tolo”. Hoje em dia, o álbum é tido como um dos melhores da história da música brasileira. Fundindo rock com baião, Raul fez um som original, diferente do que vinha sendo produzido na época.

Com relação à vida pessoal, o filme mostra Raul de verdade, sem se mostrar chapa branca em nenhum momento, relatando como ele era um cara extremamente carismático, mas acumulava relações afetivas complexas, que acabaram por afastá-lo de suas três filhas. As ex-parceiras demonstram muito carinho e afeto por Raul, mesmo com as relações conturbadas e traições, ele era um cara gentil e atencioso.

O filme trata também dos conhecidos e contínuos problemas de Raul com álcool e seu envolvimento com outras drogas, fala também de seu envolvimento com seitas satânicas que adoravam a obra de Aleister Crowley. Interessante notar essa parte mais sombria da vida do cantor.

Através dos depoimentos, vemos a evolução da carreira de Raul até seu auge, passando por famosos parceiros como Jay Vaquer, Cláudio Roberto e Edy Star, além de depoimentos de Caetano Veloso, Nelson Motta, entre outros e acompanhamos a reviravolta que se deu em meados dos anos 80, quando Raul experimentou o gosto amargo de insucessos e o abandono por parte das gravadoras e televisões, só retornando aos palcos já no fim da vida, bastante debilitado devido ao alcoolismo ao lado do também baiano Marcelo Nova. Ao lado do novo parceiro e fã, fez mais de 50 shows, o que levanta uma discussão entre os entrevistados sobre as reais intenções de Marcelo com Raul, de modo que alguns o acusaram de explorar a imagem desse em prol de sua turnê e outros questionaram até se ele teria condições físicas de ter feito aquela turnê. O fato é que os shows deram uma sobrevida à carreira de Raul.

O filme segue a risca o título e refaz os últimos passos de Raul no apartamento em que ele faleceu em 1989, com depoimentos de sua empregada, Marta e do porteiro que ajudou o músico a subir no elevador de tão debilitado que o mesmo estava.

Apesar de longo, o documentário mostra todas as fases da vida do Maluco Beleza, passando pela sua vida pessoal e artística, com depoimentos daqueles que passaram diretamente pela sua vida e fizeram parte de sua história. Além disso, Raul aparece como um ser humano, com falhas e defeitos, e não como um herói inatingível como muitas vezes tentamos pintar nossos ídolos.

Vale como registro definitivo da vida e obra deste que foi, sem dúvida, um dos maiores artistas nascidos na nossa terra.



David Oaski



sexta-feira, 19 de abril de 2013

RESENHA: A VERDADEIRA HISTÓRIA DE HERMES E RENATO



Quem cresceu nos anos 90 e 2000 e não conhece Hermes e Renato não teve uma infância plena. O humor non sense e sátiras de programas populares dos caras são impagáveis, além de personagens clássicos, como os que dão título ao programa e, principalmente Boça e Joselito Sem-Noção. Ao longo de dez anos no ar na Mtv (de 1999 a 2009), os caras fizeram de tudo: esquetes de humor, sátiras de novelas e programas de auditórios (Cláudio Ricardo, Palhaço Gozo), músicas (Massacration, Coração Melão, entre outros) e até dublagens de filmes thrash (Tela Class), tudo de forma singela e muito competente, acumulando fãs e se mantendo engraçados e relevantes durante todo período que estiveram no ar.

Personagens clássicos: Joselito e Boça
Apesar do meu apreço e memória afetiva pelo programa, não sabia muito sobre a vida dos artistas além da tv, tampouco as origens dos atores, sequer nomes verdadeiros. Porém, ontem a Mtv – que os recontratou após alguns anos com os Legendários, onde mudaram o nome para Banana Mecânica – exibiu o documentário “A Verdadeira História de Hermes e Renato” e achei muito bacana.

Desde moleques, a trupe fazia gravações amadoras e extremamente toscas na casa de Fausto, o líder do grupo. Lá, eles faziam sátiras de comerciais, programas e filmes de forma completamente simples, entre amigos, com o único intuito de diversão. Do elenco que se consolidou na Mtv, Adriano (Joselito) e Fausto (Renato) sempre estiveram na bagunça, e desde muito pirralhos demonstravam ser engraçados e, de forma intuitiva desenvolveram um talento natural para o humor.

Quando Marco (Hermes) entrou para o grupo a coisa começou a ficar um pouco mais ‘séria’, pois eles começaram a seguir roteiros e a tentar brincar com cortes de câmeras, tudo com muita influência do que admiravam e assistiam desde sempre como pornochanchada, Trapalhões e programas de auditório diversos. Essa experiência de espectador deu a eles um feeling natural que seria visto anos mais tarde na tv. Ainda entrariam para o grupo Bruno Sutter (Detonator) e Felipe Torres (Boça).

Figuras centrais - Hermes e Renato
Após muitos anos de gravações como hobby, o grupo resolve concorrer a uma promoção na Mtv para veicular uma vinheta, sendo que no vídeo enviado haviam também gravações diversas, com alguns dos quadros que eles faziam. O vídeo virou hit nos corredores da Mtv e eles foram chamados para fazer mais dez vinhetas e, dependendo da aprovação do público, assinariam um contrato.

A repercussão foi imediata, com a audiência pirando naqueles malucos, com roupas características dos anos 70, falando palavrões pelos cotovelos e fazendo as sátiras mais absurdas do mundo. Daí foram 10 anos se reinventando a cada temporada, com quadros e personagens clássicos e mostrando talento em diversas plataformas do humor, chegando ao ponto deles próprios assumirem a direção do programa.

É curioso ver os caras fora dos personagens e falando sério para a câmera. São histórias divertidas contadas inclusive pela mãe e irmão do Fausto (o último inclusive participava das gravações no começo). A passagem em que contam que o Joselito realmente existiu e era um ex-cunhado do Fausto é hilária.

O mais interessante é ver como a sorte dos caras virou a partir do envio daquela fita, sendo que uma brincadeira se tornou a profissão deles e ver como eles acreditam no que fazem e se divertem fazendo, o que torna tudo mais divertido ainda para o público.



David Oaski


quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

RESENHA: A TODO VOLUME



Nota: 8,0

A Todo Volume (título original “It Might Get Loud”) é um documentário lançado em 2009, que tem como tema central o profundo envolvimento de três artistas com a guitarra, sendo eles Jimmy Page (Led Zeppelin), The Edge (U2) e Jack White (White Stripes, Raconteurs e carreira solo).

O intuito do documentário é elucidar toda a mística que envolve o instrumento e a paixão que o mesmo desperta em todos que a empunham. Mostra desde o início do interesse de cada um pela guitarra e seus atrativos, até suas preferências por sons, como desenvolveram seus estilos de tocar, seus equipamentos preferidos, influências, métodos de composição e tudo mais.

Logo no início do documentário, são mostrados os três, saindo de suas casas, cada um num carro, contando suas expectativas sobre o encontro com os outros dois guitarristas. Page fala sobre como Edge e White são caras de timbre único, com muita personalidade. O documentário circula entre o encontro entre os três, onde fazem algumas jams, com takes de cada um ouvindo música, tocando algumas coisas e mostrando suas raízes como instrumentistas.

Jam do trio com violões
Já de cara, entendemos o porquê da escolha do trio, pois cada um tem um estilo peculiar, Page é um gênio, virtuoso, extremamente criativo, tira sons impressionantes de um mesmo instrumento a cada acorde, como quando ele exemplifica isso tocando “Ramble On”, com suas variações, ora suaves, ora agressivas, em que ele fala que há luz e sombra em algumas de suas canções. No entanto, The Edge é fascinado por pedaleiras e equipamentos de som e ama explorar os diversos sons que são sua marca registrada com o U2 desde sempre. Já White se mostra um pouco avesso à tecnologia, pois vê como uma facilidade de uso, exigindo menos criatividade por parte dos músicos. É muito legal ver esse contraste.

Somos transportados à Irlanda, para ver as raízes do U2, com Edge, que mostra demos dos primórdios da banda, a sala de aula que servia como palco para ensaios da banda e como tudo começou. Fala também sobre como ele foi influenciado por bandas como The Jam, The Clash e Ramones, pois ele finalmente viu alguém que falasse por sua geração no mundo da música; também vemos como Jack White ralou antes de se tornar músico, já que morava num bairro pobre e predominantemente negro, a onda era hip hop e house, tocar guitarra era visto com maus olhos por sua vizinhança, desde cedo se interessou por blues da década de 30, como Robert Johnson, e Son House, influências pouco usuais hoje em dia, que fazem dele um músico único em sua geração; já Page descreve sua clássica experiência como músico de estúdio na Grã Bretanha nos anos 60, quando participou de quase tudo que era gravado, porém sentia falto de algo mais, de criar suas próprias canções.

O discreto e brilhante The Edge

Além disso, vemos o método de composição de cada um, sendo que Page vê cada música sob uma circunstância, já que para ele as melodias e ideias surgem de forma espontânea, através de uma centelha criativa que todo artista deve ter; já The Edge gosta de testar riffs ao ar livre e conta que começou a compor por incentivo de Bono Vox durante as gravações de “War”, terceiro disco do U2, muito inspirado nas condições precárias atravessadas pela Irlanda na época; e Jack gosta de guitarras meio tortas e desafinadas, gosta de ser desafiado pelo instrumento, falou também que é preciso existir alguma luta interior ou ao seu redor, senão você precisa criar uma para obter inspiração.

White babando em Page tocando "Whole Lotta Love"
Outras partes marcantes são Page tocando “The Battle of Evermore” em frente à clássica casa utilizada como estúdio pelo Led Zeppelin na década de 70, o mesmo Jimmy tirando onda ouvindo música, com sua coleção de discos atrás e ainda ele, falando sobre o skiffle, o ritmo pré rock, que segundo ele, foi o leite materno do estilo. Vale destacar também o processo de fabricação da linda guitarra de Jack White, produzida sob encomenda para o Raconteurs.

Entre a conversa em que os músicos falam sobre sua experiência, rolam algumas jams, entre elas a cena já clássica de Page tocando o riff de “Whole Lotta Love” e The Edge e White nitidamente emocionados como que tivessem vendo algo mágico diante de si, e realmente estavam, é de arrepiar. Além dessa, Page também toca, mas dessa vez acompanhado pelos dois fazendo slide, em “In My Time of Dying”. White também dá show com “Dead Lives and the Dirty Ground” e os três fecham o documentário com violões tocando uma bela versão de “The Weight”, da The Band.
O trio amplificado

A Todo Volume é altamente recomendado a todos aqueles que admiram o instrumento das seis cordas, pois mesmo aqueles que não tocam (como eu) ficarão instigados em apalpar o instrumento mais sexy que existe como diz Jimmy Page num trecho. Inclusive, o que mais me causou estranheza ao acompanhar o documentário foi ver Jimmy Page sem empunhar uma guitarra, pois parece que ele e seu instrumento são uma coisa só, que se complementam.

Trata-se de um encontro raro de três músicos tão brilhantes quanto humildes que batalharam muito pra se tornarem o que são hoje, são verdadeiros operários da guitarra e não à toa merecem o reconhecimento que tem. Que o amor à música demonstrado pelos três inspire as novas gerações a criarem algo que se compare à obra deles no futuro.







David Oaski


sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

UMA NOITE EM 67



Histórico. Essa é a palavra que melhor define o III Festival da Música Popular Brasileira, realizado pela TV Record, no Teatro Paramount, em 1967. E essa aura histórica e de tremenda efervescência cultural que o documentário dirigido por Renato Terra e Ricardo Calil, busca resgatar e transmitir ao telespectador ao longo de 85 minutos.

São vídeos originais das apresentações dos cinco primeiros colocados do festival, além de entrevistas atuais com os artistas, críticos e técnicos que trabalharam no festival, traçando um retrato da cultura de uma geração brilhante da música brasileira.

Dentre os músicos, são entrevistados Sérgio Ricardo, Caetano Veloso, Chico Buarque, Gilberto Gil, MPB-4, Edu Lobo e Roberto Carlos. Além do crítico e compositor Nelson Motta; do realizador do projeto do festival Solano Ribeiro; o diretor da TV Record, Paulinho Machado de Carvalho; Zuza Homem de Mello, então técnico de som do evento; o jurado Sérgio Cabral; e o jornalista Chico de Assis.

É interessante que o documentário entrelaça imagens originais do evento, incluindo as entrevistas com os músicos feitas na cobertura do festival, com depoimentos atuais dos diversos envolvidos citados acima, comentando além do festival em si, o momento cultural e político que o país passava, enfrentando toda a rigidez do regime militar e a censura.

Entre as apresentações históricas, o filme mostra na íntegra as apresentações de todos os finalistas, incluindo Sérgio Ricardo, que durante a apresentação de “Beto Bom de Bola”, incomodado com as constantes vaias da plateia se retira do palco, sem antes quebrar seu violão e arremessa-lo na audiência, sendo dessa forma, eliminado do festival. Além disso, vemos o vencedor do festival Edu Lobo, cantando ao lado de Marília Medalha, a canção vencedora, “Ponteio”; Caetano Veloso cantando ao lado da banda argentina The Beats, a belíssima (e relegada por ele nos dias de hoje) “Alegria, Alegria”; Gilberto Gil, que ficou em segundo, tocando ao lado dos Mutantes, a não menos bela “Domingo no Parque”; o galã Chico Buarque, com seus 23 anos, cantando “Roda Viva” como gente grande, ao lado do MPB-4; e a surpreendente interpretação de Roberto Carlos no samba “Maria, Carnaval e Cinzas”. Ainda participaram do festival, porém sem se classificar à final, Elis Regina, que levou o prêmio de melhor interprete com “O Cantador” e Nara Leão, que cantou ao lado de Sidnei Miller, “A Estrada e o Violeiro” que ganharia o prêmio de melhor letra.

Dentre os fatos mais curiosos da época, destacam-se a passeata contra a guitarra elétrica, lembrada por Nelson Motta, em que participaram artistas como Jair Rodrigues, Elis Regina e Gilberto Gil e tinha como intuito a conservação da música brasileira de raiz, vendo a guitarra como símbolo de uma possível invasão da cultura norte americana e britânica, relegando a MPB. Todos artistas que participaram daquele movimento hoje reconhecem quão absurdo aquela passeata foi.

Outro momento divertido do documentário se dá quando Miltinho da MPB-4 relata uma passagem em que estavam assistindo uma apresentação de Caetano Veloso durante sua fase tropicalista, onde ele abusava da androgenia e, ao encontrar com Erasmo Carlos, da turma rival da Jovem Guarda, ambos dizem não estar entendendo nada da apresentação. A história é deliciosa.

Ressalta-se também o momento em que Chico Buarque diz ter se sentido sozinho durante o movimento tropicalista encabeçado por Caetano e Gil, pois todos o viam como o retrato de um comportamento tido como mais velho, conservador, o que, de fato, não era verdade.

O que mais me chamou atenção ao assistir ao documentário foi como nossos artistas jovens da época eram inteligentes e cultos e conseguiam transmitir isso através de suas letras e músicas. Apesar de serem muito jovens, Caetano (24), Chico (23) e Edu Lobo (23), todos já cantavam e compunham músicas com forte apelo social, gritando por liberdade, com linguagem sofisticada e extremamente competente. O mais surreal de tudo é que as músicas eram populares, era isso que o povo ouvia e se interessava. Já hoje em dia, vemos caras de 35, 40 anos cantando como dramas adolescentes como se não houvesse mais nada o que se questionar na nossa sociedade cada vez mais capenga.

Fico me perguntando onde estão os Caetanos, Chicos, Gils e Elises da minha geração e não os encontrei. O que torna ainda mais precioso o documentário é a lembrança de um tempo em que éramos mais inteligentes, tanto artistas, quanto público e até entrevistadores, fazendo um programa popular e de extrema qualidade.

Um dia, quem sabe, nossa MPB deixe de ser tão pretensiosa e volte a ser talentosa daquele jeito, com lindas canções que toquem de verdade o coração das pessoas e não só sirvam de trilha sonora pra mais uma balada vazia e monótona.


Segue a lista completa dos ganhadores da inesquecível noite:

1º lugar: "Ponteio" (Edu Lobo e Capinam), com Edu Lobo, Marília Medalha e Quarteto Novo;

2º lugar: "Domingo no parque" (Gilberto Gil), com Gilberto Gil e Os Mutantes;

3º lugar: "Roda-viva" (Chico Buarque), com Chico Buarque e MPB-4;

4º lugar: "Alegria, alegria" (Caetano Veloso), com Caetano Veloso e Beat Boys;

5º lugar: "Maria, Carnaval e Cinzas" (Luís Carlos Paraná), com Roberto Carlos e O Grupo;

6º lugar: "Gabriela" (Maranhão), com o MPB-4.

Outras premiações:

Melhor letra: Sidney Miller ("A estrada e o violeiro")

Melhor intérprete: Elis Regina ("O cantador")

Melhor arranjo: Rogério Duprat ("Domingo no parque")



David Oaski