quarta-feira, 7 de maio de 2014

RESENHA: VIDA - KEITH RICHARDS


 Nota: 7,5

Vida é o título da biografia de Keith Richards, guitarrista e membro fundador dos Rolling Stones, lançado no ano de 2010, quando o músico tinha 67 anos e muitas lembranças, boas e ruins.

O livro é longo, possui pouco mais de 600 páginas, recheadas de lembranças divertidas, densas e tenebrosas, o que era de se esperar de um dos rockstars mais folclóricos de todos os tempos.

Em ordem cronológica, Richards relata desde sua infância no proletariado inglês, passando por suas relações familiares, dificuldade em aceitar as fórmulas de ensino e disciplina do colégio britânico, o início da amizade com Mick Jagger e, claro, a formação e inúmeras histórias de bastidores dos Rolling Stones e seus diversos problemas com drogas.

Keith velhinho
Confesso que apesar de imprescindível, se tratando da biografia do cara, a primeira parte do livro foi um tanto cansativa, em que Keith fala de sua infância, relações familiares, etc. Devorei essas páginas, buscando chegar logo nos anos de Rolling Stones.

Keith lembra com precisão, muitas vezes evocando passagens de anotações de diários, histórias dos primeiros ensaios dos Rolling Stones, das primeiras apresentações da banda em pequenos clubes ingleses nos anos 60. As turnês para os Estados Unidos, sem nenhum glamour e passagens com os outros integrantes da banda: Charlie Watts, Mick Jagger, Brian Jones e Bill Wyman.

Já nos primeiros singles, os Rolling Stones viraram uma mania na Inglaterra, comandando cabeça a cabeça com os Beatles o movimento cultural que ficaria conhecido como invasão britânica, que Keith destrincha muito bem, enumerando os diversos representantes desse período, não só no mundo da música, mas da moda, da literatura, da dramaturgia e das artes de modo geral, já que ele, junto com a banda passou a fazer parte desse epicentro de talentos surgidos na Inglaterra dos anos 60 que se espalharam pelo mundo.

Keith cheio de charme com a guitarra em punho
No começo, devido à postura de bad boy da banda, eles sofreram muita perseguição das autoridades, tanto em turnês, quanto nas suas próprias casas, as batidas em busca de drogas eram comuns e quase sempre bem sucedidas. Em todas as vezes, apesar de alguns processos, eles acabaram saindo ilesos, com penas alternativas dos casos.

Já em meados dos anos 60, Keith se envolve com heroína, vício que lhe consumiria por cerca de uma década, passando por diversas tentativas frustrantes de desintoxicação. O consumo era diário, porém com uso “responsável”, já que Keith ressalta que conhecia os seus limites e só usava veneno bom, como ele chama a droga. Nessa época Keith vivia com Anitta, mãe de dois dos seus filhos, que também era viciada.

Quando, enfim, conseguiu se livrar da heroína no final dos anos 70, Keith passou a dar mais atenção ao business que envolvia os Stones, que até então era comandado por Jagger, foi aí que Keith percebeu o quanto seu amigo havia mudado. Ele ressalta em diversas vezes no decorrer do livro que apesar de continuar amigo de Mick Jagger, durante os anos 60 ele era uma pessoa, amigável e companheiro, porém após a década de 70 ele sucumbiu aos baba ovos que o cercavam e passou a agir de uma forma megalomaníaca e controladora, o que ia contra a personalidade centrada e voltada à música de Keith. Esse choque gerou diversas confusões no decorrer dos anos seguintes.
Formação atual dos Stones

Nos anos 80, Keith conheceu aquela que seria o amor de sua vida, Patti e teve mais duas filhas. Essa década marcou o período de maior atrito entre ele e Jagger, já que a banda permaneceu inativa 90% da década em decorrência do investimento de Mick em sua carreira solo. Segundo Keith, Mick Jagger fez um acordo por baixo dos panos com os managers das gravadoras, atrelando lançamentos dos Stones com seus álbuns solos, o que deixou o restante da banda putos com seu vocalistas, pois se sentiram traídos. Keith e Jagger trocaram diversas farpas através da imprensa e Richards resolveu também lançar seus projetos, ambos não tiveram muito êxito comercial, já que os fãs queriam os Rolling Stones e não seus membros avulsos.

Após uma reconciliação no final dos anos 80, os Stones se tornaram uma corporação multimilionária, com shows para milhares de pessoas em arenas gigantes e turnês que estão até hoje entre as mais rentáveis da história da música mundial. Os anos 90 seguiram tranquilos para Keith, mais voltado para família, seus gatos e cachorros, com lançamentos e turnês espaçados dos Stones, ele só teve sua paz abalada quando sofreu dois acidentes que ele bateu a cabeça e correu risco de vida, mas superados com bom humor e confiança.

Considerações Finais

Conforme dito, a biografia é extensa e se torna cansativa em alguns momentos, porém as histórias dos Stones são preciosas, como quando Keith revela como ele compôs com Mick Jagger pela primeira vez presos na cozinha pelo seu empresário, de onde saiu a linda “As Tears Go By”. Keith conta também diversas aventuras em que teve que entrar na pancada para se safar de confusões; lembra com detalhes o processo de composição de cada disco, o que é muito interessante e faz você querer ouvir com atenção redobrada a discografia da banda.

O mais importante a meu ver é que Keith Richards abre o baú das suas memória e expões seus êxitos e todo brilho de um dos maiores guitarristas da história, mas também mostra os perrengues e superações que ele passou e que todos temos que passar.

Keith se mostra além de tudo, um apaixonado por música, um cara intenso e de personalidade, um legítimo rockstar!


David Oaski


terça-feira, 8 de abril de 2014

RESENHA: SOUND CITY


Nota:8,5

Documentário dirigido pelo líder do Foo Fighters, Dave Grohl, Sound City conta a história do estúdio americano de mesmo nome, inaugurado em 1972, que ficou famoso por realizar gravações de grandes artistas, ter excelente qualidade na gravação e se tratar de um espaço despojado e de aspecto sujo.

A lista é grande, mas o estúdio recebeu gente do naipe de Fleetwood Mac, REO Speedwagon, Rick Springfield, Nirvana, Metallica, Rage Against The Machine, Slipknot, entre muitos outros. Em meados dos anos 70 e primeira metade no início dos anos 80 o estúdio teve seu primeiro grande momento, com procura de diversos artistas devido à notável qualidade de gravação analógica, tendo como destaque o som da bateria, citado por muitos dos entrevistados como único.

No final dos anos 80, com o advento da tecnologia nas gravações, a procura pelo Sound City decaía gradativamente e o responsável por resgatar o estúdio das cinzas foi o Nirvana, com seu clássico improvável: “Nevermind”, de 1991, que abriu as portas pra toda uma nova geração que iria atrás daquele som de guitarras altas e cozinha fantástica que as mesas de som do lugar proporcionavam.

O que tornava o som do estúdio tão especial, segundo os artistas e técnicos entrevistados era a mesa de som Neve, produzida sob encomenda por um engenheiro, a mesa absorvia um som orgânico através de fitas, o que tornava o trabalho do produtor muito mais árduo. Outro detalhe era o espaço das salas, que naturalmente tinham um excelente poder de captação.

A fachada nada suntuosa do estúdio
É curioso notar nos depoimentos, as falas sobre o aspecto do lugar, já que todos destacam a falta de organização e o aspecto deplorável do estúdio. Mesmo recebendo tantas estrelas eles nunca se preocuparam em ostentar aparência, mas sim com a música e as gravações em si.

Com a queda vertiginosa do mercado fonográfico e o avanço brutal das tecnologias de gravação que permitem que um cara grave tudo no seu notebook, o estúdio finalmente fechou as portas recentemente, mas um dos seus principais entusiastas, o diretor do documentário Dave Grohl resolveu comprar a mesa Neve e realizar umas jams com alguns dos músicos que passaram por lá, dessas jams nasceu a trilha sonora do documentário, que é fantástica, com participações de Trent Reznor, Josh Homme, Paul McCartney, Rick Springfield, entre outros. A trilha é arrebatadora.

Dave Grohl viajando no som da mesa mágica
Ao longo dos depoimentos, conforme a história é contada por gente como Neil Young, Tom Petty, Josh Homme e funcionários e produtores que trabalharam no estúdio, nota-se que o foco da produção é no amor que a música desperta, no quanto aqueles marmanjos são envolvidos afetivamente pela música.

É bonito de se ver e como Josh Homme diz: “A internet é ótima, mas ela não tem lojas de discos, livrarias e não tem o Sound City”, ou seja, muitas experiências fascinantes de caráter orgânico não podem ser adquiridas no mundo virtual.



David Oaski

quinta-feira, 3 de abril de 2014

A SENSACIONAL PRIMEIRA TEMPORADA DE TRUE DETECTIVE


Confirmando a tendência atual de que as séries norte americanas estão mais interessantes que os filmes de Hollywood, True Detective estreou em Janeiro deste ano na HBO e virou febre mundial, que só tende a crescer.

Envolta de um clima dark e misterioso do interior dos Estados Unidos, a série gira em torno de dois detetives: Martin Hart (Woody Harrelson) e Rustin “Rust” Cohle (Matthew McConauguey) que investigaram um caso de assassinato macabro no ano de 1995. A vítima foi encontrada num local distante, com símbolos satânicos, chifres e quase de quatro, havendo sinais de diversas agressões e abuso. Logo eles descobririam se tratar de um assassino em série.

Os episódios se dividem na época do assassinato, com os dias atuais, em que ambos detetives estão prestando depoimento sobre o caso, pois aparentemente os assassinatos haviam voltado a ocorrer, de modo que eles haviam matado os assassino à época, as suspeitas caem sobre Rust. Além de contar detalhes sobre o caso, os flashbacks também mostram a vida pessoal dos detetives à época, Rust morando sozinho, insone e tomando todo tipo de remédios e Martin com problemas conjugais.

Protagonistas de peso
Não vou contar aqui o desfecho da série pra não estragar seu divertimento e envolvimento na trama, mas saiba que as atuações são fantásticas, Woody está ótimo como Martin, um cara de crenças familiares, porém de relações extraconjugais; e Matthew é o ator do momento, está fenomenal como Rust, um personagem solitário e soturno que perdeu a filha e nunca se recuperou, não tendo fé em nada ou ninguém. Ambos, porém, são excelentes detetives. Há também Michelle Monaghan, que interpreta a esposa de Martin, Maggie e também está muito bem.

Juntamente com as atuações, outro destaque são os roteiros, simplesmente sensacionais, com diálogos densos, de cair o queixo. Talvez seja essa ainda a grande diferença das produções norte americanas em comparação com as brasileiras, a força de um bom roteiro.

Vale destacar também a trilha sonora, capitaneada pelo veterano T. Bone Burnett, a série é repleta de bons sons obscuros, dando o exato clima que o enredo sombrio pede. O tema de abertura chama-se “Far From Any Road” de uma banda de folk escocesa chamada The Handsome Family e a música está presente no álbum “Singing Bones”, de 2003, que é fantástico e eu nunca descobriria não fosse pela série.

Já se fala numa nova temporada da série, porém com novos atores e novos personagens, é esperar por coisa boa.

Enfim, cada vez perco menos tempo com filmes, afinal como vi José Padilha dizer numa entrevista recente, é muito mais fácil para os diretores e roteiristas espalharem e desenrolarem uma boa história ao longo de uma temporada de oito episódio (como é o caso de True Detective) do que condensar tudo em uma hora e meia, duas horas de um blockbuster.

Se você gosta de acompanhar séries, mergulhe em True Detective, pois é sensacional.



David Oaski

quinta-feira, 27 de março de 2014

RESENHA: CLUBE DE COMPRAS DALLAS



Nota: 8,5

Lançado em 2013, a produção norte americana Clube de Compras Dallas – título original Dallas Buyers Club - conta a história do eletricista / cowboy Ron Woodroof  (Matthew McConauguey). Ron é homofóbico e leva uma vida desregrada típica dos anos 80, com muito sexo e drogas, porém após passar mal e desmaiar descobre ter adquirido o vírus da AIDS e os médicos dão a ele no máximo 30 dias de vida. Vale lembrar que estamos em 1985 e se tinha pouquíssima informação sobre a doença.

McConauguey, o melhor ator da atualidade
Ron, assim como qualquer um, pira ao saber que tem um mês de vida e age de forma cética, continuando com sua vida de putaria, no entanto ele rapidamente percebe que seu corpo não aguenta mais o baque e procura novamente os médicos atrás de AZT, a droga que combatia a doença na época e que mais tarde se revelaria altamente tóxica e acabava por prejudicar o paciente na maioria dos casos.

No primeiro mês Ron pega o remédio de forma clandestina com um funcionário do hospital, porém após a distribuição da droga ser dificultada, o funcionário indica a Ron um médico no México que poderia lhe ajudar.

Ron parte para o México sem pestanejar e encontra o médico que toca uma clínica clandestina de aparência grotesca e afirma a Ron que o AZT deteriora ainda mais o organismo do portador de HIV, sendo que ele estava desenvolvendo com base em estudos um tratamento alternativo com outros medicamentos menos danosos e vitaminas.

Jared Leto sensacional no papel de um travesti
Ron, que já havia pesquisado tudo que havia disponível de informação sobre a doença investe todas as fichas nesse tratamento e nota uma significável melhora no seu estado de saúde. É quando ele tem o insight de levar esse tratamento aos Estados Unidos, como uma espécie de traficante do bem.

Apesar de alguma dificuldade com a fiscalização da fronteira, Ron consegue entrar no seu país natal com a medicação em alta quantidade se passando por um padre com câncer. Chegando em casa ele começa a negociar as drogas em boates e grupos de ajuda, é quando ele encontra com Rayon (Jared Leto), um travesti que ele já havia encontrado durante uma de suas internações e o mesmo o ajuda na disseminação das vendas.

Estava formado o que viria a ficar conhecido como Clube de Compras Dallas, que cobrava uma taxa mensal e fornecia aos enfermos quaisquer remédios que quisessem. O clube tinha uma sede numa espécie de cortiço e era administrado por Ron, em parceria com Rayon, com quem após muito preconceito ele desenvolve uma amizade.

Apesar de ser um sucesso o clube de compras começa a despertar a ira do governo através do órgão de controle de drogas, o FDA (Food and Drug Administration), que começa a apertar o cerco devido ao fato da maioria da população portadora da doença não procurar mais os hospitais para tratamento, mas sim os clubes de tratamento alternativo. Apesar de se mostrarem eficazes, os tratamentos não eram passados por médicos, o que trazia um risco grande a quem se utilizava das medicações. Além disso, a indústria farmacêutica e hospitalar americana vendo tudo aquilo como um negócio também se sentia cada vez mais incomodada com a prosperidade do clube.

A FDA consegue finalmente proibir a entrada das medicações que Ron negociava, pondo fim ao Clube de Compras Dallas, porém ele ainda conseguiria na justiça permissão para tomar um de seus medicamentos. Rayon morre durante esse processo.

A garra e a dedicação de Ron em não se conformar com a doença e seus tratamentos formais deram a ele mais sete anos de vida. Ele faleceu em decorrência da AIDS em 1992.

Considerações Finais

Com atuações fantástica de Matthew McConauguey e Jared Leto, ambos vencedores dos óscares de melhor ator e melhor ator coadjuvante respectivamente, Clube de Compras Dallas mostra como uma história bem contada, com bom roteiro e bons atores pode se tornar um grande filme.

Pois o filme não traz nenhuma história hiper desenvolvida ou uma ficção ultra emaranhada, mas somente uma história de vida, de pessoas lutando por suas vidas numa época em que uma doença até então obscura assolava a vida de muitos.

Com forte carga emocional, a obra mostra a garra de um cara tentando se manter vivo e, afinal não é isso que fazemos diariamente? Só que Ron o fez com classe e ajudou muita gente na sua luta.


David Oaski


terça-feira, 25 de março de 2014

PASSEIO (QUASE) NORMAL


Meia hora pra achar uma vaga no estacionamento. Gente saindo pelo ladrão, ao ponto de você não ouvir o que a pessoa ao seu lado fala. Calor, muito calor.

Adultos, crianças, carrinhos de bebê, cadeirantes e o que mais for possível estão presentes.
A cada loja que você entra é um calvário, atendentes mal humorados, pequenos espaços abarrotados, fila no provador e fila no caixa.

Se desejar comer algo, você terá que ficar meia hora com a bandeja e sua comida esfriando enquanto espera desocupar um lugar. Ou ainda, você pode quase sentar no colo de alguém e guardar lugar, enquanto seu acompanhante vai tirar o pedido (que demora aproximadamente meia hora).

Você paga em média R$ 10,00 num estacionamento de merda a céu aberto, onde qualquer zé mané pode bater no seu carro e sair voado.

Tudo isso pra gastar uma parte dos seus vencimentos com bobagens que você não precisa.
É realmente maravilhoso um passeio no shopping center.


David Oaski




quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

TOP 5: ÁLBUNS ROCK NACIONAL ANOS 80

Como disse num post recente o rock nacional segue produzindo excelentes bandas, porém nem por isso deixo de gostar da fase tida como clássica do rock nacional, os anos 80. Na época o rock era a bola da vez, a galinha dos ovos de ouro das gravadoras, os queridinhos dos programas de auditório e presença dominante nas rádios AM e FM.

A comparação é esdrúxula, mas o rock nos anos 80 foi o que é hoje o sertanejo universitário, uma mania que se espalhou por todo o país, só que convenhamos, uma mania com muito mais conteúdo e gente inteligente envolvida. Claro que no meio dos talentos acabaram aparecendo algumas porcarias que o tempo fez questão de esquecer.

Muitas das bandas surgidas naquela época, hoje possuem status de classic rock do nosso país, algumas lidando bem com a passagem do tempo como o Capital Inicial, outras ficando pelo caminho, outras caindo no ostracismo e outras vivendo de celebrar o próprio passado ao invés de produzir e compor coisas novas.

Grandes bandas dos anos 80 temos aos montes, porém poucas conseguiram o êxito de produzir um disco inteiro bom, com composições ricas do início ao fim, formando obras enxutas, fazendo jus ao conceito de álbum, aquele punhado de canções que juntas passam a fazer mais sentido do que fariam avulsas, que retratam um momento, um conceito, uma estética do que a banda se propõs a fazer naquele trabalho.

Pensando nisso, resolvi listar meu cinco álbuns de rock nacional preferidos dos anos 80. A lista não está numa ordem de preferência, mas são os discos que vou ouvir pro resto da vida.

Lá vai:


Ira! – Vivendo E Não Aprendendo

Como falei antes, não são poucos os bons álbuns lançados nos anos 80, mas é difícil algum deles superar o segundo álbum do Ira!, banda paulista formada em 1981, que no auge contava com Nasi no vocal, Edgard Scandurra na guitarra, Ricardo Gaspa no baixo e André Jung na bateria.

Coeso, lírico e extremamente potente o disco, lançado em 1986, foi o maior êxito comercial da banda, além da manjada “Envelheço Na Cidade”, havia também a forte “Dias De Luta”, a romântica “Flores Em Você” (que foi tema de novela no horário nobre global), a belíssima “Quinze Anos (Vivendo E Não Aprendendo)” e as pouco lembradas, mas não menos ferozes “Casa De Papel”, “Vitrine Viva” e “Nas Ruas”.

O disco é urbano, cru e direto, com exceção de “Flores Em Você” e marcou época com belos arranjos e canções alinhadas no álbum mais consistente do rock nacional dos anos 80. Melodias incríveis oriundas do talento de Scandurra e toda a presença vocal de Nasi fizeram desse álbum um marco na música brasileira.


Carnaval – Barão Vermelho

Ainda se recuperando do baque da saída de Cazuza da banda em 1985, o Barão Vermelho, a melhor banda da história do rock nacional, lançava em 1988 a joia chamada “Carnaval”. Contando somente com três integrantes fixos na formação, Frejat (vocal e guitarra), Dé (baixo) e Guto Goffi (bateria), a banda adicionou às guitarras stoneanas já tradicionais percussão e fez um disco sensacional que os recolocou no primeiro time do rock nacional.

O disco conta ainda com participação de letristas do naipe de Humberto Gessinger, Arnaldo Antunes e Paulo Miklos. Os destaques são a sensacional “Pense E Dance”, a feroz “Não Me Acabo” e a cadenciada “Lente”.

Rock n’ roll na essência cantado em português como pouco se viu no rock brazuca.


Dois – Legião Urbana

Por mais que “Eduardo E Monica” e “Tempo Perdido” toquem em todos os programas de flashback das rádios não há como negar que o segundo disco da Legião, lançado em 1986 é um clássico.

As famosas melodias simples calcadas no rock britânico dos Smiths e Joy Division serviam de base para Renato Russo declamar suas letras fenomenais. “Acrilic On Canvas”, “Andrea Doria”, “Metropole”, “Daniel Na Cova Dos Leões”, enfim, o disco é bom de ponta a ponta e por mais que seja clichê citar a Legião, é impossível fugir desse lugar comum.


Nem Polícia, Nem Bandido – Golpe de Estado

Uma das bandas mais subestimadas do rock nacional, o Golpe de Estado nunca desfrutou do reconhecimento e da fama de seus contemporâneos do Ira! E Titãs, por exemplo, mas fez como poucos hard rock brasileiro.

Com o ótimo Helcio Aguirra nas guitarras e o louco Catalau nos vocais, a banda lançou ótimos discos e esse mostra o grupo no auge, com destaques para as faixas “Paixão”, “Filho De Deus” e a faixa título.

A recente morte do guitarrista Helcio Aguirra trouxe de volta o nome do Golpe às manchetes de rock. Espero que com o tempo eles ganhem, mesmo que com um atraso monstruoso, o reconhecimento merecido.


Jesus Não Tem Dentes No País Dos Banguelas – Titãs

Apesar do clássico absoluto dos Titãs ser considerado o álbum anterior, de 1986, “Cabeça Dinossauro”, prefiro a linguagem e agressividade de “Jesus...”. Ainda com oito integrantes, os paulistas compuseram faixas do naipe de “Lugar Nenhum” e “Diversão”, duas das melhores da discografia da banda, além de “Corações E Mente”, “Comida” e “Mentiras”, é muita coisa boa.






E pra você, faltou alguma coisa? Discorda? Concorda? Quem sabe rola uma segunda parte do post em breve. Deixe suas dicas nos comentários...


David Oaski




segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

RESENHA: ALTA FIDELIDADE - NICK HORNBY



Nota: 8,5

Alta Fidelidade (título original: “High Fidelity”) é um livro escrito por Nick Hornby lançado em 1995. Rapidamente se tornou um best seller e um clássico moderno.

Protagonizado e narrado por Rob Fleming, um britânico de trinta e cinco anos, dono de uma loja de discos e que acaba de terminar um relacionamento, dando vazão à crise da meia idade.

Rob tem um conhecimento musica privilegiado, por conviver entre discos, por coleciona-los e por ser vidrado em música pop, chegando a atribuir a esta várias vezes sua infelicidade no amor, afinal é impossível não sofrer por amor sendo bombardeado por canções que falam de perdas e desamores, como ele fala em algumas passagens do livro.

Na loja de discos, a Championship Vinil, ele trabalha com Dick e Barry, Dick é introvertido e adora ouvir coisas novas, já Barry é solitário, irônico e grosseiro na maioria das vezes. Na loja, os três passam o tempo bolando mixtapes e fazendo top 5 de diversos temas, como as cinco músicas para tocar em funeral, cinco melhores primeiras faixas de um álbum e por aí vai.

Nick Hornby - ótimo autor e roteirista
Ao terminar o seu relacionamento com Sara, Rob ao invés de lidar com maturidade com a situação, resolve listar os cinco piores términos de namoro de vida dele. Seu grande prazer ao listar as pataquadas é que Sara não está na lista, o que soa como uma vitória pra ele.

Sara terminou com Rob, pois estava se sentindo parada no tempo, além do que ela já havia perdoado uma traição do então namorado e ficado grávida no mesmo período, ao saber da traição resolveu abortar, sem consultar Rob, que sequer sabia da gravidez, ele ficou arrasado. Rob também havia pegado uma quantia significante de dinheiro emprestado com Sara e nunca havia pago. Sara então saiu da casa de Rob e foi morar um tempo com o vizinho de cima, Ian, com quem ela estava tendo um caso.

De início, Rob tenta levar numa boa, porém notando a cada dia como Sara lhe fazia falta ele resolve retomar contato e mais, resolve entrar em contato com todas as cinco ex namoradas listadas no final do relacionamento. Conversando com os antigos casos, Rob percebe que muito das suas lembranças doloridas não se valiam, pois as pessoas ou tinham se tornado desinteressantes ou reconheciam que erraram ao terminar com ele.

Pra tentar superar Sara, Rob se envolve com Marie, uma cantora americana, extremamente sexy e divertida, porém a química não prevalece no sexo e o encontro se mostra vazio, o que faz ele sentir ainda mais falta de Sara.

A situação se inverte quando o pai de Sara morre e o casal acaba se reaproximando e volta a morar junto, porém sem nenhum sentido piegas ou intenção de conto de fadas do autor, pelo contrário, ambos sentem que devem ficar juntos, um pouco por se amarem, mas mais por ser muito difícil encontrar alguém legal e com afinidades nessa idade.

Rob então passa a fazer planos de abrir um selo para lançar discos e Sara o incentiva a fazer pocket shows na sua loja e voltar a discotecar, coisa que Rob não fazia há décadas.
Rob enfim percebe que é hora de sossegar no âmbito amoroso e se mover no âmbito profissional. Finalmente Rob resolve encarar a vida adulta.


Considerações Finais

Nick Hornby conseguiu traduzir uma geração em seu romance, além de ser uma das poucas obras que aborda de forma fidedigna muitos dos mitos, anseios e inseguranças do mundo adulto masculino.

Rob (Cusack) e Barry (Jack Black) na adaptação cinematográfica de 2000
Com escrita extremamente fluída e leitura agradável, Alta Fidelidade te prende daquela forma deliciosa, vemos Rob transparecendo um cara seguro, cheio de si, quando na verdade ele está extremamente chateado com o rumo que sua vida tomou. Quantos caras você conhece em situação idêntica?

O autor revela através de Rob uma faceta pouco explorada na literatura e cinema até então, o homem de meia idade, amargurado e inseguro, que não demonstra a ninguém como se sente de verdade, construindo uma casca, guardando cada vez mais seus sentimentos em algum lugar escuro da alma.

Cerceando de forma bela a história com cultura pop, Alta Fidelidade vai além das desventuras amorosas de Rob, pois mostra um cara extremamente apaixonado por música, que ama os sábados, quando sua loja tem mais movimento e pode fazer a vontade daqueles procuram um disco especial, assim como tirar sarro daqueles que nem sabem o que estão fazendo ali. Não à toa, o livro virou um clássico instantâneo e ganhou adaptação cinematográfica nas mãos de John Cusack (que interpretou Rob) marcando uma época em que ouvir e comprar discos fazia parte da rotina da sociedade.


David Oaski